"Womb"

Ano: 2020
Selo: 4AD
Gênero: Indie Pop, Dream Pop, Synthpop
Para quem gosta de: Grimes e CHVRCHES
Ouça: Peacefull e I Like The Devil
Nota: 7.0

Crítica | Purity Ring: “Womb”

Em 2012, quando Corin Roddick e Megan James deram vida ao primeiro trabalho de estúdio como Purity Ring, Shrines, havia um evidente senso de novidade em tudo aquilo que era apresentado pela obra da dupla canadense. Canções regidas pelo preciosismo dos sintetizadores, temas eletrônicos e melodias etéreas, porém, destacadas pela força das batidas e flertes com o trap, proposta que não apenas revelou ao público algumas das melhores criações do casal, caso de Obedear, Loftcries e Finishrine, como aproximou os músicos de Edmonton de nomes como Danny Brown, Lady Gaga e demais artistas em destaque no período.

Talvez, por isso, quando Roddick e James deram vida ao segundo álbum de estúdio do Purity Ring, Another Eternity (2015), as reações do público e crítica tenham sido tão negativas. Longe do pop conceitual detalhado no primeiro registro de inéditas da banda, o duo norte-americano decidiu investir em um repertório ainda mais acessível, livre do mesmo refinamento estético evidente no disco anterior. Canções como Push Pull e Begin Again que pareciam apenas simplificar tudo aquilo que os dois artistas haviam testado anos antes.

Interessante perceber nas canções de Womb (2020, 4AD), terceiro e mais recente álbum de estúdio do Purity Ring, um parcial regresso ao mesmo universo criativo que embala as composições do elogiado debute. Como indicado logo na introdutória Rubyinsides, cada fragmento do disco encontra em camadas de sintetizadores, ruídos e ambientações pouco convencionais a base para o material que orienta a experiência do ouvinte até a derradeira Stardew. Músicas que vão do minimalismo eletrônico às pistas em uma linguagem própria da dupla canadense.

Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade na dobradinha composta por Peacefull e I Like The Devil. Enquanto a primeira faixa ganha forma em meio a ambientações atmosféricas, fazendo da voz doce de James uma espécie de complemento à batidas lançadas por Roddick, na canção seguinte, o resultado passa a ser outro. Do uso dos sintetizadores à percussão seca, tudo soa como uma criativa desconstrução do material entregue em Shrines. São fragmentos de vozes, pianos e ruídos eletrônicos que parecem maiores a cada nova audição, cuidado que se reflete até o último instante da faixa.

Com base nessa estrutura, a dupla investe na composição de um trabalho que parece lidar com os instantes de forma sempre imprevisível. Canções como Pink Lightning e Silkspun que vão do parcial recolhimento à euforia, indicativo claro do esforço da banda em se reinventar dentro de estúdio. O mesmo direcionamento acaba se refletindo na forma como James trabalha os versos de cada música. São letras consumidas pelas incertezas do cotidiano e a permanente sensação de deslocamento do eu lírico, proposta que embala as criações do Purity Ring desde o primeiro registro de inéditas.

Claramente pensado para dialogar com o público fiel da banda, Womb preserva a essência dos antigos trabalhos do Purity Ring, porém, se permite provar de novas possibilidades e ritmos, estrutura que se reflete no uso de texturas eletrônicas, vozes e abstrações complementares que correm ao fundo de cada canção. São frações poéticas e instrumentais marcadas pelos detalhes, estrutura que perde fôlego na segunda metade do registro, vide a evidente reciclagem de ideias em músicas como as ambientais Almanac e Vehemence, mas que mantém sua consistência, como um novo e bem-sucedido capítulo na discografia da dupla.