"Purple Mountains"

Ano: 2019
Selo: Drag City
Gênero: Indie Rock, Alt. Country
Para quem gosta de: Wilco, The National e Bill Callahan
Ouça: All My Happiness Is Gon e Darkness and Cold
Nota: 8.7

Crítica | “Purple Mountains”, Purple Mountains

Durante duas décadas, David Berman fez do trabalho como vocalista e principal compositor do Silver Jews a base para uma seleção de obras marcadas pela completa melancolia e descrença do eu lírico. Canções ancoradas em temas intimistas, versos consumidos pela permanente sensação de isolamento e distanciamento entre os indivíduos. Registros importantes, caso de American Water (1998) e Tanglewood Numbers (2005), que fizeram do grupo norte-americano um dos mais influentes e expressivos do período, vide a herança explícita em projetos recentes de artistas como The National e Parquet Courts.

Com o fim das atividades da banda, em 2009, Berman decidiu se distanciar dos palcos e investir na carreira literária que vinha explorando de forma esporádica desde a segunda metade dos anos 1990. Entretanto, com um extenso catálogo de poemas em mãos, além, claro, de colaborar em obras recentes, como Wildflower (2016), álbum que marcou a volta do coletivo australiano The Avalanches, o músico norte-americano decidiu investir em um novo projeto musical, o Purple Mountains.

Para o primeiro álbum de estúdio com a nova banda, Berman que havia convidado Dan Bejar (Destroyer) a trabalhar como produtor do disco, e conversado com Dan Auerbach (The Black Keys) e o antigo parceiro no Silver Jews, o músico Stephen Malkmus (Pavement), decidiu concluir as gravações do projeto em parceria com Jeremy Earl, Jarvis Taveniere e Aaron Neveu, ambos integrantes do grupo nova-iorquino Woods. O resultado desse lento processo de gravação está na entrega de um registro conceitualmente amplo, ainda que seguro, efeito direto da poesia minuciosa e temas confessionais que orientam a experiência do ouvinte até o último instante.

Concebido em um intervalo de cinco anos, o registro inaugurado pela descritiva That’s Just the Way That I Feel, utiliza das vivências e conflitos recentes do artista como principal componente criativo para o fortalecimento dos versos. São canções como All My Happiness Is Gone (“E eu confesso que mal estou aguentando / Toda minha felicidade se foi“) e Darkness and Cold (“A luz da minha vida está saindo hoje a noite / Sem um lampejo de arrependimento“) em Berman discute o longo período de depressão enfrentado na última década, além, claro, da separação de Cassie Berman, antiga parceira de banda com quem esteve envolvido durante quase duas décadas.

Interessante notar que mesmo consumido pela dor na construção dos versos, musicalmente, a estreia do Purple Mountains está longe de parecer uma obra soturna, difícil de ser absorvida pelo ouvinte. Da mesma forma que no Silver Jews, Berman e os parceiros de banda investem na composição de um registro dinâmico e detalhista, estrutura que se reflete nos sintetizadores e guitarras sertanejas de Margaritas at the Mall, ou mesmo na atmosfera descompromissada da sarcástica She’s Making Friends, I’m Turning Stranger. De fato, são poucos e delicados os momentos em que o trabalho desaba emocionalmente, caso de Snow Is Falling in Manhattan e, principalmente, Nights That Won’t Happen, música que reflete a completa melancolia do compositor.

Cercado de colaboradores, como o multi-instrumentista Kyle Forester (Crystal Stilts), John Andrews (Quilt) e voz complementar de Anna St. Louis, Berman utiliza do primeiro álbum de estúdio do Purple Mountains como um doloroso exercício de exposição sentimental. É como se o músico norte-americano transformasse em música parte das experiências, conflitos e angústias que vem sendo acumuladas desde o fim das atividades no Silver Jews, proposta que faz do presente disco um dos mais expressivos de toda a carreira do artista.