"Quiet Signs"

Ano: 2019
Selo: Mexican Summer / City Slang
Gênero: Indie, Folk, Pop de Câmara
Para quem gosta de: Adrianne Lenker e Julie Byrne
Ouça: This Time Around e Fare Thee Well
Nota: 8.5

Crítica: “Quiet Signs”, Jessica Pratt

Em uma primeira audição, Quiet Signs (2019, Mexican Summer / City Slang) talvez seja apenas mais um em meio a tantos outros registros embriagados pelo cancioneiro norte-americano dos anos 1970. Da composição dos arranjos ao uso delicado da voz, sempre econômica, cada elemento do terceiro e mais recente álbum de estúdio de Jessica Pratt parece seguir a trilha de veteranas do gênero, como Joni Mitchell, Karen Dalton ou mesmo a britânica Vashti Bunyan. Um emular de velhas possibilidades e melodias que vem sendo aprimorado sem pressa, desde o homônimo debute da cantora e compositora californiana.

A principal diferença em relação ao presente disco e toda a sequência de obras entregues por Pratt nos últimos anos, principalmente o antecessor On Your Own Love Again (2015), está na forma como a artista de São Francisco parece brincar com os espaços dentro de cada canção. De fato, o silêncio é parte substancial do som produzido em Quiet Sings. Do momento em que tem início, na instrumental Opening Night, perceba como a musicista estabelece pequenas brechas e respiros pontuais, arrastando o ouvinte para dentro de um trabalho marcado pela minúcia, esmero que força uma audição atenta até o último instante do álbum, em Aeroplane.

Parte dessa estrutura vem do claro desejo de Pratt e do produtor Al Carlson em encapsular a atmosfera de obras produzidas entre o final dos anos 1960 e início da década de 1970, dialogando com diferentes nomes com pop de câmara, soul e jazz. De performances ao vivo, como Nina Simone in Concert (1964), passando pelo cuidadoso repertório de Scott Walker, Paul Williams e outras referências confessas pela artista em uma recente edição do What’s In My Bag?, cada movimento em Quiet Sings parece conduzir o ouvinte em direção ao passado.

Claro que esse propositado diálogo da artista com representantes vindos de diferentes campos da música não interfere na produção de uma obra autoral, guiada em essência pela força dos sentimentos despejados pela artista. Exemplo disso está em This Time Around, sexta composição do disco. Enquanto os versos refletem a completa melancolia do eu lírico – “Desta vez / Ficou tão cinza que minha fé não pode aguentar? / Você não ouviu” – , musicalmente, Pratt dança por entre diferentes gêneros e conceitos instrumentais, provando desde melodias íntimas da bossa nova ao folk etéreo e psicodélico de artistas como Nico.

Uma criativa reciclagem de conceitos que ganha nova formatação na voz atmosférica e fina tapeçaria acústica que cobra toda a superfície do registro. Ideias que se espalham sem pressa, como na base instrumental que encolhe e cresce em Silent Song, a atmosfera colorida de Poly Blue ou mesmo o som empoeirado de Aeroplane, música que parece apontar para o som urbano de nomes como The Velvet Underground. Encaixes certeiros que sutilmente ampliam tudo aquilo que vem sendo testado por Pratt há quase uma década.

Produto do claro refinamento estético da musicista, Quiet Signs força o regresso do ouvinte a fim de uma absorção completa da obra. São camadas instrumentais e poéticas que ora confessam algumas das principais inquietações da artista norte-americana, ora mergulham o ouvinte em um universo de profundo romantismo. Composições que parecem seguir uma trilha particular quando próximas de outros exemplares recentes da cena norte-americana, como Abyskiss (2018), de Adrianne Lenker, ou mesmo o recente Remind Me Tomorrow (2019), de Sharon Van Etten.



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