"Quintais"

Ano: 2019
Selo: YB Music
Gênero: Jazz, Afrobeat, MPB
Para quem gosta de: Bixiga 70 e Metá Metá
Ouça: Quintais, Íris e Sete Fluidos
Nota: 8.5

Crítica | “Quintais”, Iconili

Com o lançamento de Piacó (2015), os integrantes do coletivo mineiro Iconili alcançaram um novo estágio criativo. Em um intervalo de mais de 70 minutos de duração, composições marcadas pelo uso de metais, texturas e camadas detalhistas pareciam expressar o completo amadurecimento da banda – hoje formada pelos músicos André Orandi (teclados e saxofone alto), Chaya Vazquez (percussão), Gustavo Cunha (guitarra e sintetizadores), Henrique Staino (saxofone tenor e soprano), Josi Lopes (voz), João Machala (trombone), Lucas Freitas (saxofone barítono e clarone), Rafa Nunes (percussão), Fernando Monteiro (bateria), Rafael Mandacaru (guitarra e teremim) e Willian Rosa (baixo).

Quatro anos após a entrega do registro, o grupo mineiro não apenas resgata parte das experiências detalhadas durante a produção de Piacó, como convida o ouvinte a se perder em um universo marcado pela constante transformação. Em Quintais (2019, YB Music), mais recente trabalho de estúdio da Iconili, cada composição aponta para uma nova direção conceitual, indicativo da completa versatilidade do álbum que ainda conta com a interferência do produtor Leonardo Marques (Moons, Transmissor).

Síntese desse profundo desejo de renovação ecoa com naturalidade logo nos primeiros minutos do disco, em Írís. Concebida em pequenas doses, a canção não apenas se abre para a breve interferência do percussionista Paulo Sérgio dos Santos (Uakti), como surpreende pelo uso inusitado da voz e da poesia lançada pela vocalista Josi Lopes. “Ninguém silencia a íris da mulher / A lente do olho tem o poder / O elã / Que ecoa cheiro de cachoeira / E espada de guerreira“, canta em meio a versos marcados pela temática da ancestralidade feminina e referências religiosas que aproximam o grupo mineiro de elementos da cultura africana.

A mesma pluralidade de elementos se faz evidente na faixa-título do disco. São pouco mais de quatro minutos em que o coletivo mergulha na produção de temas regionais, detalhando guitarras, metais e elementos percussivos de forma sempre ritualística. Em Mandacaru, terceira composição do disco, um rico cardápio de ideias que parte da essência jazzística para revisitar a obra de veteranos do funk, como James Brown. A própria canção de abertura do disco, Sete Fluidos, dança pelo tempo, coletando temas e referências extraídas de diferentes campos da música. Um ziguezaguear de ideias que cresce até o último instante da obra, em Quem Viver Verá.

Mesmo dentro desse cenário marcado pelo direcionamento festivo dos elementos, interessante perceber em músicas como Canoada um evidente ponto de ruptura. De essência climática, a canção parte da lenta sobreposição dos ruídos, batidas e vozes, resultando em uma faixa marcada pelo forte aspecto experimental. O mesmo som delirante acaba se refletindo em Cruz de Agadez, novo encontro com Paulo Sérgio dos Santos que mostra a capacidade do coletivo em brincar com a formação de temas econômicos, cercando e provocando o ouvinte.

Claramente pensado para as apresentações ao vivo da banda, Quintais joga com a experiência do público durante toda sua execução. Entre versos políticos que fazem lembrar o trabalho de Kamasi Washington, em Heaven and Earth (2018), e instantes de profunda contemplação, cada fragmento do disco parece transportar o ouvinte para um território completamente novo. Um colorido mosaico de ideias que não apenas sintetiza algumas das principais referências criativas da banda, como serve de complemento ao extenso repertório que vem sendo construído pelo grupo desde o início da presente década.