"The Main Thing"

Ano: 2020
Selo: Domino
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: The War On Drugs e Kurt Vile
Ouça: The Main Thing, You e Paper Cup
Nota: 7.5

Crítica | Real Estate: “The Main Thing”

Dificilmente os integrantes do Real Estate serão capazes de reproduzir um som tão significativo quanto o material apresentado em Days (2011) e
Atlas (2014). E eles parecem saber disso. Entretanto, mesmo longe de alcançar o mesmo resultado criativo explícito em dois de seus principais registros, o grupo de Nova Jersey mantém firme a própria identidade criativa, revelando ao público um bem-sucedido catálogo de faixas. Foi assim com o lançamento de In Mind (2017), de onde vieram músicas como Darling e Stained Glass, e volta a se repetir com a chegada do quinto trabalho de inéditas da banda, The Main Thing (2020, Domino).

Com produção assinada por Kevin McMahon (Titus Andronicus, Swans), o trabalho de 13 faixas segue exatamente de onde o grupo parou há três anos. São canções que parecem dançar pelo tempo, sempre de forma nostálgica, estrutura que vai do jangle pop incorporado por veteranos dos anos 1980 à lisergia litorânea da década de 1970. Um olhar curioso para o passado, mas que se completa pelo lirismo confessional de Martin Courtney, proposta que embala os trabalhos da banda desde o homônimo debute entregue há mais de uma década.

Não por acaso, o grupo — hoje completo pelos músicos Alex Bleeker, Matt Kallman, Jackson Pollis e Julian Lynch —, fez de Paper Cup a primeira composição do disco a ser apresentada ao público. São pouco mais de quatro minutos em que o quinteto estadunidense preserva a essência dos antigos trabalhos, porém, se permite avançar criativamente, efeito direto do uso destacado dos sintetizadores e arranjos de corda que sutilmente ampliam os limites da obra. Um misto de passado e presente que ganha ainda mais destaque pela breve interferência vocal de Amelia Meath, convidada da banda e uma das metades do Sylvan Esso.

Mesmo quando utiliza de uma série de elementos há muito consolidados pelo Real Estate, evidente é o esmero do quinteto na entrega de cada composição. Exemplo disso está na própria faixa-título do trabalho. Do uso das guitarras ao tratamento dado às vozes, tudo soa como um regresso ao mesmo ambiente ensolarado de Days. Mesmo o solo destacado, na segunda metade da canção, parece resgatar a essência do registro entregue há nove anos, estrutura que se completa pela força dos versos e ritmo intenso dado à composição.

É partindo desse mesmo direcionamento explícito em Paper Cup e na faixa-título do disco que o grupo orienta a experiência do ouvinte durante grande parte da obra. São músicas como You, November e Falling Down em que Courtney e seus parceiros de banda parecem brincar com os detalhes, revelando versos cantaroláveis e melodias sempre aprazíveis, como se pensadas para grudar na cabeça do ouvinte. Surgem até faixas como a curiosa Silent World, com sua bateria eletrônica e guitarras espaçadas, indicativo de um novo universo criativo a ser explorado pelo grupo nos próximos trabalhos.

Pontuado por instantes de maior calmaria, como na introdutória Friday, Shallow Sun e no pop psicodélico que toma conta de Also a But, The Main Thing funciona como uma clara síntese de tudo aquilo que o Real Estate tem produzido desde o início da carreira. São delicadas paisagens instrumentais, arranjos detalhistas e momentos de breve transformação que mostram a tentativa do grupo de Nova Jersey em se reinventar dentro de estúdio. Um exercício curioso e musicalmente preciso sobre tudo aquilo que define a obra do quinteto norte-americano.