"Rente"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Indie, Rock Alternativo, Pós-Punk
Para quem gosta de: Lupe de Lupe e Giovani Cidreira
Ouça: Gira, Veemente e Deus Não Compactua
Nota: 8.6

Crítica | “Rente”, Jair Naves

O breve período em que esteve afastado dos estúdios nos últimos anos em nada parece ter prejudicado o trabalho de Jair Naves. Pelo contrário, poucas vezes antes a poesia entregue pelo cantor e compositor mineiro radicado em São Paulo pareceu tão necessária e forte quanto nas canções de Rente (2019, Independente). Terceiro álbum de estúdio do também vocalista da Ludovic em carreira solo, o álbum segue exatamente de onde o artista parou há quatro anos, durante o lançamento de Trovões a Me Atingir (2015). Um minucioso catálogo lírico que traduz as emoções e, principalmente, a completa descrença de seu realizador.

Que força é essa que te cega / Te emburrece e te enche de raiva / De quem ousa ter menos que você? … Minha terra é uma bomba a ponto de explodir / Minha fé é uma bomba a ponto de explodir / Minha gente é uma bomba a ponto de explodir“, canta logo nos primeiros minutos do disco, em Veemente. São versos em que discute a atual situação política e social do Brasil, estrutura que se completa pelo dedilhado tímido do violão de Naves e a fina tapeçaria melódica orquestrada pelo violoncelo de Raphael Evangelista.

A mesma poesia angustiada se faz evidente na crueza de Deus Não Compactua, música em que discute a manipulação política e religiosa de forma essencialmente visceral, crua, lembrando os antigos trabalhos como integrante da Ludovic. “Nada é mais humano que a disputa por poder / Nada é mais desumano que a disputa por poder … Não tem fim, não tem fim, não tem fim / Será que Deus vê a imagem de um inimigo em mim?“, questiona enquanto a bateria rápida de Lucas Melo e guitarras compartilhadas entre Naves e Renato Ribeiro servem de estímulo para o ambiente caótico da canção.

É partindo justamente desse aspecto questionador e contemplativo que Naves estabelece o alicerce poético de grande parte da obra. Da mesma forma que no soturno E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas (2012), o cantor e compositor mineiro utiliza de crônicas musicadas, diferentes personagens e narrativas curtas para provocar o ouvinte. Canções como Alívio Cômico/Palanque, O.H.R.E.U.C.S. e a própria faixa-título do disco em que o músico utiliza de metáforas e cenas reais para discutir o valor do dinheiro, a corrupção dos indivíduos e os vícios das relações humanas.

Dos poucos momentos em que se distancia desse conceito, Naves encontra nas próprias emoções e no romantismo triste dos versos a base para algumas das composições mais sensíveis de sua carreira. “Me ajuda a ver o que existe de bom em mim / Eu tenho tentado ser a minha melhor versão / Me guia, eu só ouço a sua voz / A gente se acostuma a ser só / A gente se convence a não confiar em ninguém“, desaba em Gira, um verdadeiro exercício de profunda entrega sentimental. Poemas entristecidos que flutuam em meio a versos ora dolorosos, ora libertadores, estrutura que ganha ainda mais destaque no lirismo agridoce de Escalas (“Bem que dizem que o começo / É o mais difícil de aguentar / Eu acabei de chegar / E eu vim para ficar“), e segue até a faixa de encerramento do disco, Sonhos Se Formam Sem o Meu Consentimento (“No seu olhar, nenhuma compaixão / De uma frieza morta a sua reação“).

Feito para ser desvendado aos poucos, sem pressa, Rente mostra o cuidado do artista mineiro durante toda a execução do trabalho. Entre versos descritivos e instantes de maior contemplação, Naves e seus parceiros de estúdio entregam ao público uma obra que parece maior e mais complexa a cada nova audição. Um olhar triste e realista sobre a nossa sociedade, mas que a todo momento estabelece pequenos respiros esperançosos, como uma extensão segura e naturalmente provocativa de tudo aquilo que o músico vem explorando desde o início do trabalho em carreira solo.