"Resavoir"

Ano: 2019
Selo: International Anthem
Gênero: Jazz, Soul, Instrumental
Para quem gosta de: Kamasi Washington e BADBADNOTGOOD
Ouça: Woah, Resavoir e LML
Nota: 8.0

Crítica | “Resavoir”, Resavoir

Mais conhecido pelo trabalho como integrante do Whitney, com quem colaborou na composição do delicado Light Upon the Lake (2016), Will Miller passou os últimos anos se revezando na produção de uma série de obras importantes para a cena norte-americana. São registros e performances ao vivo ao lado de nomes como Lil’ Wayne, Unknown Mortal Orchestra, Mac Miller e A$AP Rocky. Surgem ainda encontros com esporádicos com Chance The Rapper, Saba e toda uma frente de artistas da cena de Chicago, onde o multi-instrumentista tem assumido o papel de destaque como um de seus principais articuladores culturais.

Em Resavoir (2019, International Anthem), primeiro álbum de estúdio do coletivo homônimo comandado por Miller, uma síntese natural de todo esse processo criativo que o trompetista vem conduzindo desde o início da presente década. Trata-se de uma obra colaborativa que se abre para a interferência direta dos músicos Akenya Seymour (voz, pianos), Macie Stewart (violinos), Lane Beckstrom (baixo), Colin Croom (sintetizadores), J.P. Floyd (trombone), Mira Magrill (flautas), Peter Manheim (bateria, percussão), Zoe Miller (violino), Irvin Pierce (saxofone), Brian Sanborn (guitarra), Jeremy Cunningham (bateria), Wills McKenna (flauta), Luke Sangerman (bateria eletrônica), Knox Fortune (programação) e Carter Lang (bateria eletrônica e produção).

Ancorado em conceitos jazzísticos, o registro de nove faixas e pouco menos de 30 minutos de duração utiliza da leveza na montagem dos arranjos como um elemento de imediato diálogo com o ouvinte. Exemplo disso está na delicada vinheta de abertura do disco. Pouco mais de um minutos em que vozes atmosféricas, arranjos de cordas e ruídos ocasionais se espalham em meio a cantos de pássaros e melodias cuidadosamente orquestradas por Miller. Uma estrutura leve e acolhedora, proposta que orienta a experiência do ouvinte até a otimista LML, uma das poucas canções que se abrem para a voz destacada de Seymour.

Dentro desse cenário marcado pelos detalhes, Miller e os parceiros de banda parecem dançar pelo tempo. Do evidente diálogo com a bossa nova, em Taking Flight, colaboração com o harpista Brandee Younger, passando pelo experimentalismo nostálgico de Woah, canção que vai do City Pop japonês à obra de Herbie Hancock, cada composição do disco parece transportar o ouvinte para um universo completamente novo, estrutura que em nenhum momento perverte a forte unidade da obra. São delicadas paisagens instrumentais e melodias que se repetem de maneira ocasional, reforçando o aspecto familiar que embala o disco.

Não por acaso, Miller escolheu a própria faixa-título do disco como primeira grande composição a ser apresentada ao público. São pouco menos de seis minutos em que cada instrumento assume uma posição de destaque, jogando com a interpretação do ouvinte de forma delicada. Na curtinha Illusion, sintetizadores e ruídos atmosféricos que refletem o lado mais experimental da obra. Em Plantasy, um evidente exercício de resgate criativo, como um diálogo do coletivo com diferentes exemplares do jazz clássico.

Completo pela presença do saxofonista Sen Morimoto, em Escalator, Resavoir reflete com naturalidade o mesmo frescor evidente em outros exemplares recentes do soul/jazz norte-americano. São vozes atmosféricas que fazem lembrar o trabalho de Solange, em A Seat at The Table (2016), ou mesmo a criativa colagem de ideias que marca o último álbum de estúdio Kamasi Washington, o extenso Heaven and Earth (2018). A diferença está na forma Miller e seus parceiros de banda exploram todas essas possibilidades de forma concisa, rápida. Décadas de referências e sonoridades dissolvidas em um curto espaço de tempo.



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