"Reward"

Ano: 2019
Selo: Mexican Summer
Gênero: Indie, Art Pop
Para quem gosta de: Julia Holter e Aldous Harding
Ouça: Daylight Matters e Home To You
Nota: 8.0

Crítica | “Reward”, Cate Le Bon

No último ano, Cate Le Bon recebeu o convite para produzir o oitavo álbum de estúdio do Deerhunter, Why Hasn’t Everything Already Disappeared? (2019). O resultado dessa parceria, entregue ao público há poucos meses, está na produção de um material puramente nostálgico e marcado pelos detalhes. Canções ancoradas de maneira explícita no pop de câmara dos anos 1960 e 1970, versos marcados por acontecimentos históricos e a minuciosa inserção de arranjos de cordas, cravos e outros instrumentos que contribuíram para a atmosfera orquestrada em parceria com o experiente Ben H. Allen III e demais integrantes da banda norte-americana.

Interessante perceber em Reward (2019, Mexican Summer), quinto e mais recente álbum de estúdio da multi-instrumentista britânica, um misto de continuação e delicada desconstrução do mesmo universo criativo detalhado em parceria com o Deerhunter. Do momento em que tem início, em Miami, até alcançar a faixa de encerramento do disco, Meet The Man, inserções minuciosas, melodias e versos dominados pelos sentimentos garantem ao público uma obra marcada pela incerteza dos elementos e permanente desejo de Le Bon em brincar com a própria identidade artística.

Perfeita representação desse direcionamento curioso e, ao mesmo tempo, preciso, ecoa com naturalidade na sétima faixa do disco, The Light. Em um intervalo de quase cinco minutos, Le Bon parte da lenta composição das guitarras e batidas pontuais para mergulhar em meio a camadas jazzísticas, instrumentos de sopro e inserções orquestrais que fazem lembrar os primeiros trabalhos de Kate Bush. “E eu não preciso da comédia / Segurando a porta da minha própria tragédia / Pegue a culpa pela mágoa, mas a dor me pertence“, canta em tom melancólico e contemplativo, estrutura que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da canção.

Interessante notar que mesmo dominado pelo desejo da artista em avançar criativamente, ampliando parte do repertório detalhado durante o lançamento de Crab Day (2016), Reward em nenhum momento deixa de parecer acessível ao ouvinte. Exemplo disso está em Home To You, um pop ensolarado que faz lembrar o trabalho de Julia Holter, em Have You In My Wilderness (2015). Na colorida Daylight Matters, guitarras e pianos empoeirados que serve de sustento à poesia triste que embala a canção. “Um dia na vida / Organizando as cadeiras / E eu nunca vou viver de novo / Te amo, te amo, te amo, te amo / Mas você não está aqui“, desaba emocionalmente.

Surgem ainda composições como a curtinha Sad Nudes, em que Le Bon brinca com a repetição dos arranjos e versos de maneira propositada, arrastando o ouvinte para dentro de um território marcado pelo delírio. O mesmo conceito cíclico, porém, tecido em meio a guitarras e batidas rápidas, acaba se refletindo em Magnificent Gestures. Surgem ainda criações marcadas pelo reducionismo dos instrumentos e força dos versos, base para a melancólica You Don’t Love Me, faixa que reflete o lado mais sensível da artista.

Concebido em parceria com os músicos Samur Khouja (Rodrigo Amarante, Regina Spektor) e Josiah Steinbrick (Devendra Banhart, Charlotte Gainsbourg), Reward resgata parte da estrutura que vem sendo aprimorada pela artista desde o amadurecimento conceitual, em Mug Museum (2013). Da completa exposição emocional que orienta a formação dos versos, passando pelo esmero na construção dos arranjos, Cate Le Bon entrega ao público um registro de essência minuciosa, feito para ser desvendado aos poucos, sem pressa, como um convite revisitar diferentes épocas e tormentos sentimentais de forma particular.