"Dolores Dala Guardião do Alívio"

Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: Linn da Quebrada e Tássia Reis
Ouça: Braille e Vividir
Nota: 8.3

Crítica | Rico Dalasam: “Dolores Dala Guardião do Alívio”

Como pode tamanho sentimento caber dentro de um registro tão curto? Primeiro trabalho de inéditas de Rico Dalasam em três anos, Dolores Dala Guardião do Alívio (2020, Independente) estabelece na força das rimas, romances e vivências acumuladas pelo artista paulistano a passagem para uma de suas obras mais sensíveis. Um misto de dor e alívio, recolhimento e transformação, conceito reforçado logo nos primeiros minutos do EP, no delicado texto de abertura – “não falaria de alívio se não tivesse doído tanto. Tanto que eu não pude ser o mesmo ou o mesmo de antes“–, mas que acaba se refletindo durante toda a execução do material.

Com produção dividida entre Mahal Pita (BaianaSystem), Dinho Souza e o próprio artista, o trabalho de cinco faixas nasce como um produto das memórias e experiências pessoais que tumultuaram a vida de Dalasam nos últimos anos. Um respiro aliviado e evidente busca por recomeço após o imbróglio judicial envolvendo direitos autorais sobre a música Todo Dia, colaboração com Pabllo Vittar, e uma tentativa estúpida, por parte do público, em “cancelar” o trabalho do rapper. “Porque a melhor versão de nós nunca foi na agonia, na confusão dos ódios, na distração dos brancos … E a gente ainda é a parte viva do mundo“, reforça na introdutória DDGA.

É justamente dentro desse território marcado pela força dos sentimentos e coração liberto que Dalasam revela ao público algumas de suas criações mais sensíveis. São faixas como a já conhecida Braille, composição entregue ao público ainda no último ano, mas que ganha novo significado quando observada dentro do contexto da obra. “Mil treta de insta / Mil meninos brancos / Que ouvem Ocean Frank / Mil vezes prefiro seu bumbum na minha coxa / Embalando esse funk … Já que traz tanto amor a bordo / Fecha o olho e me leia / Em braille“, clama em um misto de canto e rima. São versos sempre confessionais, intimistas, como se o rapper, pela primeira vez, se mostrasse por completo ao público.

A mesma entrega acaba se refletindo logo nos primeiros segundos do EP, em Mudou Como?, música completa pelas guitarras de Chibatinha, um dos integrantes do ÀTTØØXXÁ. São pouco mais de três minutos em que Dalasam se entrega, sufoca e desaba emocionalmente. “Você com fone de ouvido, eu gritei / Você com fone de ouvido, eu parti / Você com fone de ouvido vem dizer que mudou / Mudou? Eu duvido! / Mudou? Mudou como?“, questiona enquanto a produção de Mahal Pita se espalha em meio a sintetizadores atmosféricos, ruídos e batidas que avançam à medida em que os conflitos detalhados pelo rapper se tornam mais expressivos.

Mesmo quando acelera, como na derradeira Vividir, Dalasam em nenhum momento deixa de reforçar o aspecto sentimental que embala a composição dos versos. “E a gente vive de / Partir sem despedir / Entre um Atlântico e outro / Um cântico e outro / Com tanta saudade pra admitir“, rima de forma amarga, reforçando a tonalidade melancólica que cobre toda a superfície do registro. Apenas dor e alívio. São melodias e versos entristecidos, como uma fuga do pop escapista que embala os últimos registros autorais, vide o material entregue em Modo Diverso (2015) e Balanga Raba (2017).

De fato, tudo gira em torno das experiências particulares e emoções compartilhadas por Dalasam. Das andanças de ônibus pela cidade de São Paulo, como no interlúdio de Circular 3, passando pela poesia romântica de Mudou Como? e Braille, cada fragmento do EP reflete a força e profunda entrega do rapper. Claro que esse lirismo intimista em nenhum momento se distancia do público. São temas trabalhados em uma linguagem universal, como se as angústias, medos e paixões do artista fossem também as nossos. Canções que vão da descoberta de um novo amor à incerteza de um novo dia, proposta que faz de Dolores Dala Guardião do Alívio uma obra capaz de dialogar com todo e qualquer ouvinte.