"Sawayama"

Ano: 2020
Selo: Dirty Hit
Gênero: Pop, Pop Rock, Dance
Para quem gosta de: Grimes, Charli XCX e Sky Ferreira
Ouça: XS e Comme Des Garçon (Like The Boys)
Nota: 8.3

Crítica | Rina Sawayama: “Sawayama”

Quem acompanha o trabalho de Rina Sawayama desde o mini-álbum Rina, uma das grandes surpresas de 2017, sabe que a cantora e compositora de origem japonesa segue por vias poucos convencionais. Seja no diálogo com a música produzida nos anos 1980, como em Ordinary Superstar, ou na forma como prova de elementos do R&B, marca de Cyber Stockholm Syndrome e Tunnel Vision, essa última, bem-sucedida colaboração com o cantor Shamir, sobram momentos em que a artista residente em Londres perverte o pop tradicional em prol de um resultado deliciosamente estranho, como a passagem para um território particular.

Satisfatório perceber nas canções de Sawayama (2020, Dirty Hit), aguardado registro de estreia da artista, uma natural extensão desse mesmo conceito criativo. Do momento em que tem início, na teatral Dynasty, até alcançar a derradeira Snakeskin, Sawayama e seu principal parceiro de composição, o produtor Clarence Clarity, costuram três ou mais décadas de referências em um álbum que parece maior a cada nova audição. Canções que vão da PC Music ao nu metal, da eurodisco à ball culture de forma imprevisível, proposta que força uma audição atenta durante toda a execução da obra.

Exemplo disso está na versatilidade de XS, segunda faixa do disco. São pouco mais de três minutos em que Sawayama parece encapsular o som produzido no início dos anos 2000. Fragmentos de vozes, batidas e guitarras que ora apontam para a obra de Gwen Stefani e Avril Lavigne, ora fazem lembrar das vocalizações de Christina Aguilera e Amy Lee. Um colorido catálogo de ideias que se completa pela sobriedade dos versos. “Então eu vou pegar esse, aquele, sim, esse também / Luxo e opulência, Cartiers e Teslas X / Calabasas, eu mereço / Me chame de louca, me chame de egoísta / Eu sou a pior e valho a pena“, canta em uma bem-sucedida crítica ao consumismo.

O mesmo esmero acaba se refletindo em outros momentos ao longo do registro. É o caso da turbulenta STFU!. Entre guitarras que parecem saídas de algum disco do Rage Against The Machine e instantes de parcial recolhimento, Sawayama alcança um evidente ponto de equilíbrio, estrutura que faz lembrar de Grimes em obras como Art Angels (2015) e o ainda recente Miss Anthropocene (2020). É como se a cantora testasse os próprios limites dentro de estúdio, proposta que vai da atmosfera dançante de Comme Des Garçons (Like The Boys), uma das principais faixas do disco, à leveza de Chosen Family, música que se completa pela produção de Danny L Harle (Clairo, Caroline Polachek).

Interessante perceber esse refinamento mesmo nos momentos mais contidos da obra. Exemplo disso ecoa com naturalidade em Bad Friend, um pop atmosférico que encontra na força dos sentimentos compartilhados pela artista um importante componente de diálogo com o ouvinte. “Então não me pergunte onde eu estive / Estive evitando tudo / Porque eu sou uma péssima, uma péssima amiga“, canta em meio a texturas detalhistas que parecem saídas de algum álbum de Carly Rae Jepsen. A própria Paradisin’, canção que replica uma série de conceitos testados no disco anterior, revela incontáveis camadas instrumentais, melodias e vozes que ampliam a essência criativa de Sawayama.

O grande problema do álbum acaba ficando por conta de pequenos excessos cometidos pela cantora. Enquanto no registro anterior tudo parecia resolvido em apenas oito faixas, com o presente álbum, Sawayama estende a experiência do ouvinte para além do necessário. São músicas como Who’s Gonna Save U Now? e Tokyo Love Hotel em que mais parece replicar o material entregue na abertura do disco que realmente apresentar algo novo. Canções que evidenciam sinais de cansaço, mas que em nenhum momento ocultam a evidente entrega sentimental e força criativa da artista, proposta que se reflete com naturalidade até o último instante do trabalho.