"Fires in Heaven"

Ano: 2020
Selo: Decent Distribution
Gênero: Witch House, Eletrônica, Experimental
Para quem gosta de: oOoOO, Clams Casino e Crystal Castles
Ouça: Starfall, Red River e Old Gods
Nota: 6.5

Crítica | Salem: “Fires in Heaven”

É interessante notar o quanto determinados gêneros parecem restritos a um limitado período de tempo. Foi assim com o trip hop, durante grande parte da década de 1990 e seu parcial desaparecimento nos anos seguintes, e a chillwave, estilo que revelou um precioso, porém, limitado conjunto de obras entre o final dos anos 2000 e o início da década de 2010. Foi nesse mesmo intervalo que diferentes artistas, todos orientados por uma estética soturna, composições fantasmagóricas e nomes marcados pelo uso de caracteres especiais, deram vida ao famigerado witch house, movimento que revelou nomes curiosos como oOoOO, Balam Acab e Holy Other.

Dentro desse cenário bastante prolífico e que acabou impactando outras vertentes criativas, vide as criações de Clams Casino no rap norte-americano, um projeto se destaca de forma bastante expressiva: o Salem. Na época formado por Jack Donoghue, John Holland e Heather Marlatt, o grupo original da interiorana Traverse City, Michigan, fez do criativo cruzamento de ideias a base para o cultuado King Night (2010), disco que não apenas ajudou a estabelecer uma série de conceitos e marcas importantes para o gênero, como circulou em diferentes publicações da época, atraindo olhos e ouvidos para essa nova geração de artistas e suas criações sombrias.

Entretanto, mesmo com a boa repercussão em torno do trabalho, o grupo decidiu silenciar o projeto, voltando vez ou outra com uma nova criação. Contudo, para celebrar os dez anos de lançamento de King Night, Donoghue e Holland, membros remanescentes do Salem, decidiram não apenas reativar a banda, como lançar um novo disco de inéditas, Fires in Heaven (2020, Decent Distribution). Mas será que uma obra dotada de uma estética e sonoridade tão específica teria chances de sobreviver e dialogar com o público mesmo passada uma década do icônico registro que o antecede?

A resposta para essa pergunta pode ser respondida logo na abertura do disco, em Capulets. Enquanto a base da canção ganha forma em meio fragmentos de Dance of the Knights, clássico do compositor ucraniano Sergei Prokofiev, vozes carregadas de efeito crescem em meio a rimas tortas, como uma extensão do material entregue em King Night. Difícil não lembrar de Tyler, The Creator e outros nomes recentes que, em início de carreira, pareciam utilizar de uma sonoridade bastante similar. A própria Crisis, minutos à frente, incorpora a mesma estrutura, jogando de forma instigante com a imprevisibilidade das rimas e temas instrumentais

É como se mesmo durante esse longo período de hiato, a obra do Salem permanecesse viva nos trabalhos de outros artistas. Vem justamente dessa interpretação o que parece ser o principal defeito de Fires In Heaven. Se por um lado o álbum mantém firme o diálogo com uma frente de novos realizadores, por outro, difícil não pensar no registro como um exercício cômodo quanto próximo de diferentes exemplares dotados de uma estética bastante similar. Exemplo disso pode ser percebido nas criações de Dylan Brady e Laura Les, do 100 gecs, dupla declaradamente influenciada pelo pop torto dos anos 2010, mas que parece ir além do som proposto por Donoghue e Holland.

Claro que isso não interfere na produção de músicas como a turbulenta Old Gods. São pouco mais de dois minutos em que a dupla norte-americana traz de volta a essência do primeiro trabalho de estúdio, porém, de forma ainda mais insana, tratamento que se reflete no uso estilizado dos sintetizadores e vozes. Surgem ainda faixas como Red River, co-produzida em parceria com Shlohmo, e a já conhecida Starfall, canção que reflete o lado mais acessível do álbum, porém, pontuada por instantes de maior imprevisibilidade, conceito que acaba se refletindo em outros momentos ao longo da disco, como uma tentativa clara do Salem em ampliar os limites da própria obra.