"The Baby"

Ano: 2020
Selo: Grand Jury
Gênero: Indie, Indie Pop, Bedroom Pop
Para quem gosta de: Soccer Mommy e Clairo
Ouça: Fit N Full e Is There Something in the Movies?
Nota: 7.8

Crítica | Samia: “The Baby”

Definitivamente, Samia Finnerty não poderia ter pensado em um título melhor para o primeiro álbum em carreira solo: The Baby (2020, Grand Jury). Concebido em um intervalo de poucos meses, o registro produzido e gravado em parceria com Caleb Hinz, Jake Luppen, Nathan Stocker e Lars Stalfors, mostra o esforço da cantora e compositora nova-iorquina em se encontrar criativamente. Canções que refletem a constante sensação de deslocamento do eu lírico, sustentam nos versos a vulnerabilidade da artista e se revelam como um precioso exercício de apresentação, indicativo da completa entrega de Finnerty durante toda a execução da obra.

Quanto tempo até eu ficar mais alta? / Quanto tempo até ser meia-noite? Quanto tempo até o amanhecer? / Minhas pernas vão durar / É pedir muito?“, questiona logo nos primeiros minutos do disco, em Pool, música inaugurada em meio a trechos de áudios enviados pela própria mãe, a atriz Kathy Najimy. São pequenos questionamentos e incertezas mundanas que se conectam a conflitos sentimentais, medos e vivências compartilhadas pela cantora. Instantes em que a artista nova-iorquina prepara o terreno para tudo aquilo que será apresentado até a faixas de encerramento do álbum, a também inquietante Is There Something In The Movies?.

É justamente essa ausência de certeza e conflitos típicos de uma jovem adulta que tornam a experiência de ouvir o álbum tão satisfatória. Instantes em que Samia utiliza desse olhar curioso e contestador sobre as relações humanos como elemento de conexão com o ouvinte. “Mantendo você acordado, mantendo você acordado de propósito / Ei, eu cometi um erro ou meus erros pioraram?“, questiona na já conhecida Triptych, música em que parte de um relacionamento fracassado para refletir sobre o próprio isolamento e os diferentes personagens que assumimos após um rompimento, conceito que se reflete em outros momentos ao longo da obra.

São composições como Does Not Heal (“Dê-me sua mão, vou morder o quanto eu puder mastigar / E eu espero que você não cure“) e Stellate (“Eu quero tocar seus discos que eu gosto / Eu quero segurar sua mão / Eu quero deixar tudo ir“) em que Samia encontra em memórias de um passado ainda recente a base para grande parte dos versos. Canções que miram o futuro, porém, acabam sempre tropeçando em recordações dolorosas e sensações quase sufocantes, estrutura reforçado pela poesia descritiva da cantora, sempre interessada em explorar lugares, personagens e experiências de forma realista. Um misto permanente de dor e libertação.

Parte desse resultado vem do próprio tratamento dado aos arranjos do disco. São canções sempre marcadas pela economia dos instrumentos, como se a voz e sentimentos detalhados pela artista fossem mais importantes do que qualquer outro componente. Exemplo disso está na já citada Triptych, faixa que parte da lenta sobreposição das guitarras, sintetizadores e batidas, porém, estabelece nas vozes de Samia um complemento natural. Difícil não lembrar do primeiro álbum de St. Vincent, Marry Me (2007), obra que adota uma estrutura bastante similar, contribuindo para o fortalecimento das histórias então narradas pela jovem Anne Erin Clark.

Mesmo imerso nesse território reducionista e doloroso, The Baby a todo momento revela canções marcadas pelo aspecto radiante dos temas. É o caso da crescente Fit N Full, logo na abertura do disco, composição que não apenas resgata parte dos primeiros registros autorais da artista, como dialoga com a obra de Soccer Mommy, Clairo e outros nomes recentes da cena norte-americana. Dessa forma, Samia garante ao público um registro essencialmente equilibrado. Instantes de completa melancolia, dor e entrega confessional, porém, sempre pontuados por momentos de maior exaltação e pequenos sorrisos que rompem com qualquer traço de morosidade.


Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.