"House of Sugar"

Ano: 2019
Selo: Domino
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Car Seat Headrest e Jay Som
Ouça: Gretel, Hope e In My Arms
Nota: 8.5

Crítica | (Sandy) Alex G: “House of Sugar”

Vozes sobrepostas, camadas de guitarras, arranjos de cordas, ruídos e sintetizadores ocasionais. Em House of Sugar (2019, Domino), oitavo e mais recente álbum de estúdio do cantor e compositor Alexander Giannascoli, o (Sandy) Alex G, cada fragmento do disco se orienta de forma a revelar ao público um universo de pequenos detalhes e inserções minimalistas. São frações instrumentais e poéticas que naturalmente apontam para a obra de veteranos como The Shins, em Oh, Inverted World (2001), e Elliott Smiht, nos clássicos Either/Or (1997) e XO (1998), mas que a todo momento servem de alicerce para a fina identidade criativa do músico norte-americano, maior e mais completo a cada novo registro autoral.

Não por acaso, o músico estadunidense fez de Gretel o primeiro single do disco. Síntese do registro, a canção se espalha em meio a samples atmosféricos, guitarras carregadas de efeitos e versos sentimentais, como uma extensão madura de tudo aquilo que o cantor tem produzido desde o amadurecimento artístico em DSU (2014), primeiro trabalho em uma gravadora de médio porte. “Eu não quero voltar / Ninguém vai me tirar dos trilhos / Eu vejo o que eles fazem / Pessoas boas têm algo a perder“, reflete enquanto utiliza de trechos de João e Maria — no original Hänsel und Gretel —, dos irmãos Grimm, como um complemento aos arranjos.

São retalhos de vozes, sempre trabalhados em uma composição cíclica, como um mantra, estrutura que naturalmente reforça o aspecto instrumental que rege o disco. Exemplo disso está na faixa de abertura do álbum, Walk Away, canção que parece dar voltas em torno de uma mesma base lírica, direcionamento que se completa pela instrumentação delirante, tocada de trás para frente em diversos momentos. Em Near, a propositada repetição das vozes, sempre de maneira ritmada, como um convite a se perder pelo interior da obra. Melodias e formas abstratas que refletem o desejo de Giannascoli em avançar criativamente em relação ao antecessor Rocket (2017).

Claro que essa busca de Giannascoli por um registro puramente melódico não interfere na produção de versos destacados, sempre guiados pelo lirismo triste que há tempos vem sendo destilado pelo artista. “Ele era um bom amigo meu / Ele morreu / Por que escrevo sobre isso agora? / Tenho que honrá-lo de alguma forma / Vi algumas pessoas chorando naquela noite“, canta em Hope, música em que reflete sobre a morte recente de diversos amigos em decorrência do uso abusivo de opioides. São versos intimistas, sempre centrados no cotidiano do próprio artista, estímulo para a produção de músicas como a confessional In My Arms, Crime e toda a sequência de faixas organizadas na segunda metade do trabalho.

Em Southern Sky, bem-sucedido encontro com Emily Yacina, o mesmo refinamento na composição dos versos. “Você e eu / Estes são títulos que mal posso falar … Deixe minha memória correr para trás / Então juntos podemos mentir / Vou lembrar do fogo / No céu do sul“, canta enquanto resgata memórias de um passado ainda recente. De fato, House of Sugar é um trabalho inteiro sobre isso: experiências sentimentais, reflexões e conflitos recentes que bagunçaram a vida de Giannascoli. Um turbilhão emocional que se conecta diretamente à rica base instrumental da obra, como um exercício do permanente processo de amadurecimento artístico do músico norte-americano.

Com base nessa estrutura, Giannascoli entrega ao público um registro conceitualmente amplo, porém, ainda íntimo de tudo aquilo que o músico tem produzido desde os primeiros registros caseiros. Composições que preservam a doce melancolia, ruídos e caráter acolhedor de obras como DSU e Beach Music (2015), porém, aportam em novos territórios criativos, como no destacado uso de elementos eletrônicos, na curiosa Project 2, ou na atmosfera nostálgica que invade a derradeira SugarHouse, faixa gravada ao vivo e que vai de Bruce Springsteen a Tom Petty em uma clara tentativa do músico em brincar com a própria identidade.



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