"Pq"

Ano: 2019
Selo: QTV
Gênero: Hip-Hop, Rap, Experimental
Para quem gosta de: Ava Rocha e Edgar
Ouça: Tô Duvidando, Na Cara e Apagão
Nota: 8.0

Crítica | Saskia: “Pq”

Pq (2019, QTV) é uma verdadeira bagunça. Da construção das batidas ao uso instrumental da voz, da sobreposição irregular das melodias ao jogo torto das rimas, tudo se revela de forma propositadamente instável, confusa, como uma constante perversão do óbvio. São fragmentos de ideias que se entrelaçam sem ordem aparente, de forma deliciosamente imprecisa, estrutura que vai da lenta desconstrução do rap em seu formato tradicional ao puro experimentalismo eletrônico, proposta que não apenas apresenta o trabalho de Saskia, como convida o ouvinte a se perder em um universo de formas delirantes.

E isso se reflete logo nos primeiros minutos do disco, na autointitulada faixa de abertura. São pouco mais de três minutos em que os versos lançados pela rapper gaúcha se espalham de forma irregular, detalhando conflitos políticos, questões existencialistas e até citações à obra de Anitta. Um lento desvendar de ideias e experiências sensoriais que vai da música industrial ao jazz, fluidez que ganha ainda mais destaque na canção seguinte do disco, Pressssa. Parceria com Leo Pianki, a faixa concebida a partir de uma antiga entrevista com a atriz Dercy Gonçalvez (1907 – 2008), utiliza de improváveis abstrações como um estímulo natural para a formação dos versos.

Nada que se compare ao material entregue na faixa seguinte do disco, Tô Duvidando. Bem-sucedido encontro entre Saskia e o rapper Edgar, a canção parte de uma base jazzística para discutir racismo e sufocamento cultural de forma sempre provocativa. “Não minha senhora, eu não posso te dar / Tô devendo tudo que posso encontrar / Na tua galeria / E hoje eu estou exposta / Na tua coleção de cópia / Tô pendurada entre a alma e a cota“, ataca. A mesma crueza acaba se refletindo na sequência formada por Na Cara e Fuk U. São batidas e ambientações sujas, estímulo para a composição dos versos que tratam sobre sexo, inquietações particulares e o caos diário que sufoca qualquer indivíduo.

Em Apagão, sexta faixa do disco, batidas e vozes tratadas em uma estrutura crescente, como um estímulo para o fechamento anárquico que se completa pela interferência direta de Tantão, veterano da cena carioca que lançou há poucos meses o também caótico Drama (2019). O mesmo encontro acaba se repetindo mais à frente, em Água, composição de essência lisérgica que faz lembrar de nomes recentes do experimentalismo negro, como FKA Twigs e Yves Tumor. São instantes de fúria e sutil contemplação, dualidade explícita no encontro entre 27 Sabias Fala Brasilês e Foda, músicas que parecem sintetizar a completa versatilidade da artista dentro de estúdio.

Passada a curtinha Graça, encontro com Mateus Tabu, um dos produtores do disco junto de Renato Godoy, esse último, também responsável pela mixagem do álbum, Saskia começa a se encaminhar para o fechamento da obra. Com Mas Nada como faixa de encerramento do disco, a rapper gaúcha entrega ao público uma espécie de síntese criativa do material que abastece o restante do trabalho. São ambientações eletrônicas, quase etéreas, porém, sutilmente corrompidas pela inserção de batidas quebradas, vozes carregadas de efeito e o saxofone complementar, indicando o caminho torto que orienta a experiência do ouvinte até o último instante do registro.

Com pré-produção assinada por Ava Rocha e Negro Leo, o álbum completo pela presença de Paal Nilssen-Love (Fuk U), Nara-Vaez (Na Cara), André Ramos e Marcelulose (Mas Nada), encontra no incerto a base para cada composição entregue pela artista. Trata-se de uma obra marcado pelos instantes, estrutura evidente no direcionamento estético de músicas como Pressssa, Apagão e Na Cara. São vozes retalhadas, ruídos, sobreposições eletrônicas e a constante fragmentação dos elementos, como se diferentes propostas criativas fossem organizadas de maneira particular dentro de um único trabalho. Bagunça, e das boas.