"Saúde"

Ano: 2019
Selo: Balaclava Records
Gênero: Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Holger, Terno Rei e El Toro Fuerte
Ouça: Paciência, Notas e Noias e Quente
Nota: 7.8

Crítica | “Saúde”, Raça

Do som econômico incorporado pelos integrantes da Raça durante o lançamento de Saboroso (2016), pouco parece ter sobrevivido. Em Saúde (2019, Balaclava Records), terceiro e mais recente álbum de estúdio do grupo paulistano, guitarras fortes, batidas e sintetizadores atmosféricos pintam um extenso pano de fundo instrumental que cobre toda a superfície do registro. Um misto de passado e presente, estrutura que aponta de maneira explícita para o pós-hardcore produzido no final da década de 1990, mas que em nenhum momento corrompe a identidade concebida pela banda desde a estreia com Deu Branco (2014).

Parte dessa evidente mudança de direção vem da forma como a banda, hoje completa por Popoto Martins (guitarra e voz), Thiago Barros (bateria), João Viegas (teclado e vocal), Santiago Mazzoli (guitarra) e Novato Calmon (guitarra e vocal), vem se articulando dentro e fora de estúdio. Se no álbum anterior o grupo parecia tratar das próprias emoções de forma comedida, detalhando versos de essência metafórica, quase introspectivos, em Saúde percebemos uma completa inversão desse resultado.

São músicas que externalizam uma série de conflitos internos, ampliando de maneira explícita a forte carga emocional que serve de sustento ao disco. “Você vai se importar / Com o que vou perguntar / E como vou pagar / Minhas contas do mês? / Minha defesa contra alguém / Querendo me prejudicar“, questiona Martins na turbulenta Notas e Noias, composição que sintetiza alguns dos principais tormentos detalhados ao longo do disco. Canções como Domingo, em que o eu lírico utiliza dos próprios sentimentos como precioso elemento de conexão com o ouvinte – “São tantas questões que preciso resolver / Antes de amar alguém“.

Tamanha entrega na construção dos versos acaba se refletindo justamente no fortalecimento dos arranjos e temas instrumentais incorporados pela banda. Exemplo disso está em Paciência, oitava composição do disco. São guitarras cruas e batidas que tentam acompanhar a letra da canção, conceito que fortalece a entrega de um material essencialmente caótico. Em Bandidos e Divas, colaboração com a goiana BRVNKS, a mesma força criativa. Instantes de fúria e parcial recolhimento, como uma extensão natural dos versos despejados pela banda.

Claro que essa maior crueza na composição dos arranjos e versos não interfere na produção de músicas deliciosamente contidas. É o caso de Pouco do Todo, faixa consumida pelo peso das memórias e vozes que se completam pela breve interferência da convidada Helô Cleaver. Nada que se compare ao romantismo agridoce de Quente, música que preserva a essência econômica de Saboroso, porém, provando de novas possibilidades, vide as camadas de sintetizadores e texturas que fazem lembrar as canções de Violeta (2019), terceiro e mais recente álbum de estúdio da Terno Rei.

Mesmo entre instantes de breve desequilíbrio, como na abertura morna de Casei e a rima pobre que sutilmente corrompe músicas como Mó Real e Cabelo, Saúde mantém firme a consistência dos arranjos e temas existencialistas incorporados pela banda. Trata-se de um registro claramente ancorada em vivências pessoais, conflitos e acontecimentos recentes enfrentados pelos integrantes da Raça. Um permanente exercício criativo de compartilhar as próprias experiências, mas que a todo momento busca se aproximar do ouvinte.