"Schlagenheim"

Ano: 2019
Selo: Rough Trade
Gênero: Rock, Art Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Iceage, Parquet Courts e Preoccupations
Ouça: Speedway, Western e Of Schlagenheim
Nota: 8.5

Crítica | “Schlagenheim”, Black Midi

A caótica imagem de capa produzida Schlagenheim (2019, Rough Trade), álbum de estreia do Black Midi, funciona como um precioso indicativo do som torto incorporado pelos integrantes do quarteto britânico. De essência urbana, como tudo aquilo que o grupo — hoje composto por Geordie Greep, Matt Kwasniewski-Kelvin, Cameron Picton e Morgan Simpson — vem produzindo desde o início da carreira, o trabalho de nove faixas garante ao ouvinte numa experimente propositadamente insana, como uma permanente desconstrução de antigas fórmulas e conceitos há muito consolidados no rock inglês.

Parte desse resultado vem da forma como o próprio álbum foi concebido: em um intervalo de apenas cinco dias. Para a produção do disco, o quarteto, que já acumulava uma série de composições caseiras e apresentações caóticas, decidiu se reunir em estúdio com o produtor Dan Carey (Franz Ferdinand, Bloc Party). O resultado desse insano processo de captação está na entrega de um material ausente de qualquer traço de polidez, como se o grupo jogasse com as ideias de forma inexata, testando possibilidades dentro de estúdio.

Exemplo disso está na dobradinha formada por 953 e Speedway, logo na abertura do disco. São pouco mais de oito minutos em que o grupo parte de um som puramente anárquico, cru, para investir em experimentações climáticas. São camadas de guitarras, ruídos e distorções que ora apontam para a boa fase do Sonic Youth, entre o final dos anos 1980 e início da década de 1990, ora fazem lembrar os delírios de veteranos como The Fall e Wire. Três ou mais décadas de referências trabalhadas de forma particular, como uma interpretação reformulada de incontáveis conceitos.

Dentro desse universo marcado pelas possibilidades, cada composição do disco parece transportar o ouvinte para um território completamente distinto. Perfeita representação desse resultado está na sequência composta por Near DT, MI e a extensa Western. Se em instantes o grupo britânico parece jogar com a estranheza das formas instrumentais, colidindo guitarras e batidas de forma inexata, minutos a frente, um anti-country e a utilização de temas jazzísticos ampliam de forma expressiva os limites da obra. Uma permanente fuga do óbvio, estrutura que orienta a experiência do ouvinte até o último instante do álbum, em Ducter.

A mesma flexibilidade na composição dos arranjos acaba se refletindo na forma como os versos são trabalhados ao longo do trabalho. Canções mergulhadas em reflexões existencialistas, a incerteza das relações humanas, sexo e o medo que consome qualquer indivíduo. A própria faixa-título do disco utiliza dessa pluralidade de conceitos como um estímulo para a formação das guitarras e pequenas quebras rítmicas. Ideias e experiências particulares que se entrelaçam de forma insana, como um reforço ao material entregue em Talking Heads, Crow’s Perch e demais criações recentes do grupo.

Menos político em relação a outros exemplares recentes do rock europeu, como Joy as an Act of Resistance (2018), do Idles, e o ainda fresco Dogrel (2019), do Fontaines D.C., Schlagenheim utiliza desse propositado niilismo na formação dos versos como um evidente elemento de construção da própria identidade da banda. Trata-se de uma obra marcada pelo permanente senso de imprevisibilidade, tensa e libertadora na mesma proporção. Um agregado torto de informações, ritmos e ideias inquietantes, estrutura que faz da estreia do Black Midi um dos trabalhos mais urgentes e necessários deste ano.