"40°.40"

Ano: 2020
Selo: On-Retainer
Gênero: Hip-Hop, Rap, Grime
Para quem gosta de: VND, Febem e Fleezus
Ouça: 40º.40, Poze do Rodo e Oi
Nota: 9.0

Crítica | SD9: “40°.40”

Não se deixe enganar pelo suíngue da guitarra e sonoridade abrasiva que toma conta dos primeiros segundos de 40º.40 (2020, On-Retainer). Passado o breve respiro em Jukebox, SD9 sustenta na letra descritiva da canção um indicativo claro da dualidade e poesia crua que será explorada até o último segundo do trabalho. “Amarelo do Sol, azul do mar / Cinza asfalto quente, vermelho do sangue“, detalha em um misto de canto e rima, ambientando o ouvinte no cenário urbano e paradisíaco do Rio de Janeiro. Composições que revelam personagens, cenas e acontecimentos de forma sempre detalhista, fazendo do contraste entre a celebração e o permanente contato com a morte o principal componente criativo para a formação dos versos.

Regido pela minúcia das batidas e ambientações sintéticas típicas do grime, o trabalho de essência minimalista se divide em duas porções bastante distintas. Na primeira delas, a crueza das rimas e a realidade estampada em cada fragmento poético detalhado pelo rapper natural de Bonsucesso, bairro localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro. “Se fosse tu, no meu lugar / Tu tava fodido / É muita treta e muita merda / Resolve rapidinho / E se não for no desenrolo / Nóis resolve no tiro“, anuncia enquanto prepara o terreno para o restante da obra, como uma extensão do material entregue no último ano, durante o lançamento do também cirúrgico AM/PM EP (2019).

São canções consumidas pela inevitabilidade da morte, o peso da criminalidade e pequenos excessos, proposta que volta a se repetir em outros momentos ao longo da obra. Exemplo disso acontece em Poze do Rodo, bem-sucedido encontro com LEALL e Drope (“Se formar o tiroteio, é melhor descer do salto / Somos furo de bloqueio na segurança do Estado / Quem vai morrer pra defender o narco?“), e Números (“9 no coldre / 9 no peito / 9 na cruz / Números cravados na terra / Deus conforte minha mãe e que eu veja Jesus“). Instantes em que SD9 resgata a essência de MV Bill, em Traficando Informação (1999) e Declaração de Guerra (2002), porém, partindo de uma linguagem atualizada e novo direcionamento estético.

Passada a oração em Fé em Deus, faixa que se divide entre o som de tiros e a prece enviada pela mãe do rapper (“Livra-o, Senhor, de todas as coisas ruins deste mundo. E guarda, Senhor, ele na Tua presença“), SD9 revela ao público a segunda metade do trabalho. Com a faixa-título como ponto de separação, o rapper fluminense adota uma poesia menos urgente, porém, ainda íntima do caráter contestador que orienta a porção inicial do álbum. Canções que vão da cama aos bailes, do sexo à embriaguez de forma sempre provocativa, hipnótica, estrutura que se reflete no tratamento dado às batidas e temas instrumentais que sutilmente correm ao fundo do disco.

Te quero preta, te adoro preta, então bebe preta / Vamo fuder / Embaixo da língua / O doce sabor que altera o clima / Deixa eu vender“, rima em Oi, composição que se entrega às pistas em uma criativa colisão de ritmos, vozes sampleadas e batidas dançantes. Mais à frente, em Sexo, a mesma abordagem sentimental, porém, dotada de uma poesia deliciosamente explícita. “Ela quer me dar de quatro / Eu quero ela por cima / Ela acende o baseado / Eu empurro a minha pica“, atiça. A própria Stop Time, completa pela participação da rapper N.I.N.A, namorada do artista, amplia esse conceito de forma significativa, como uma desconstrução clara de tudo aquilo que é apresentado nos minutos iniciais do trabalho.

Completo pela produção minuciosa de Rennan Guerra, D II GO e um time seleto de representantes da cena carioca, 40º.40 nasce como um produto das experiências, medos e conquistas de SD9, porém, em nenhum momento parece preso ao próprio realizador. São canções que atravessam o cotidiano caótico do Rio de Janeiro, descrevem personagens, lembranças e histórias, fazendo dessa pluralidade de elementos a base para um trabalho que exige ser revisitado. Por trás de cada composição, um universo de pequenos detalhes e incontáveis sobreposições estéticas, conceito que dialoga diretamente com a imagem de capa do álbum, mas que parece ampliado na fluidez das rimas e fina base instrumental que serve de sustento ao disco.