"Sempre"

Ano: 2019
Selo: Conecta
Gênero: Jazz, Funk, Soul
Para quem gosta de: Azymuth e João Donato
Ouça: É Você, Alma e Olha Quem Tá Chegando
Nota: 8.0

Crítica | “Sempre”, Marcos Valle

Poucos representantes da cena brasileira parecem tão ativos e ainda musicalmente relevantes quanto Marcos Valle. Mesmo sem lançar um novo álbum de estúdio há quase uma década, o cantor e compositor carioca manteve firme o diálogo com diferentes nomes da nossa música, vide o recente encontro com Edu Lobo e Dori Caymmi, no bom Edu, Dori & Marcos (2018), além, claro, da evidente relação de proximidade com outros nomes da produção estrangeira. É o caso da cantora e compositora norte-americana Stacey Kent, com quem comemorou cinco décadas de carreira em um delicado registro ao vivo que passeia por faixas como Preciso Aprender a Ser Só e Samba de Verão.

Em Sempre (2019, Conecta), primeiro álbum de inéditas desde o elogiado Estática (2010), Valle estabelece um criativo resgate de ideias e experiências há muito consolidadas em estúdio. Trata-se de uma obra claramente ancorada pelo pop ensolarado que embala a discografia do artista entre o final dos anos 1970 e início da década de 1980. Melodias refinadas, batidas e versos marcadas pela mesma leveza explícita em obras como Vontade de Rever Você (1981) e outros clássicos assinados pelo músico.

Co-produzido em parceria entre Valle (teclados e voz) e Daniel Maunick (programação e teclados), o trabalho aos poucos se abre para a chegada de um time seleto de instrumentistas. São nomes como Alex Malheiros (baixo), Paulinho Guitarra (guitarra), Armando Marçal (percussão), Jessé Sadoc (trompete), Marcelo Martins (saxofone), Aldivas Ayres De Lima (trombone) e Patricia Alví (voz). Interferências pontuais que sutilmente ampliam os limites da obra, convidando o ouvinte a se perder em meio a reverberações nostálgicas e arranjos cuidadosamente planejados.

Exemplo disso está na própria faixa de abertura do disco, a divertida Olha Quem Tá Chegando. Entre guitarras empoeiradas, arranjos de metais e batidas que convidam o ouvinte a dançar, versos cômicos descrevem com naturalidade cenas e acontecimentos de um cotidiano tipicamente brasileiro. “Malandro quer levar, malandro quer ficar / Ele não quer ir embora / Mas ele manda pra fora / O que tem / Tá cheio de malandro que fica te enganando / Malandro em família / Malandro em quadrilha“, provoca. São pouco mais de seis minutos em que Valle e os parceiros de banda parecem trabalhar em uma medida própria de tempo, cercando o ouvinte aos poucos, sem pressa.

É dentro dessa estrutura que Valle orienta toda a formação da obra. Do experimentalismo jazzístico de Odisseia, música que faz lembrar a boa fase de Herbie Hancock, em Head Hunters (1973), passando pelo romantismo explícito em músicas como Minha Romã, É Você e Alma, cada fragmento do disco reflete o completo esmero do artista na composição dos arranjos. Mesmo a versão para Aviso aos Navegantes, música lançada por Lulu Santos em 1996, como parte do álbum Anticiclone Tropical, ganha novo direcionamento estético, mergulhando em camadas de sintetizadores e metais orientados pela linha de baixo suculenta.

Misto de resgate e criativa reinterpretação de uma série de conceitos originalmente testados por Marcos Valle há mais de três décadas, Sempre costura passado e presente de forma particular, revelando camadas de vozes, texturas e melodias trabalhadas de forma deliciosamente precisa. De fato, é necessário tempo até perceber todas as nuances e pequenas variações instrumentais que recheiam o disco. Um som cuidadoso que se manifesta tão logo o registro tem início, na já citada Olha Quem Tá Chegando, e segue até o último instante da obra, na minuciosa faixa-título que encerra o álbum.



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