"Shabrang"

Ano: 2020
Selo: Twisted Elegance
Gênero: Art Pop, R&B, Trip-Hop
Para quem gosta de: FKA Twigs, Kelela e ANOHNI
Ouça: Darkest Hour e Oh My God
Nota: 8.0

Crítica | Sevdaliza: “Shabrang”

Mesmo que tenha deixado o Irã quando tinha apenas cinco anos, Sevdaliza nunca escondeu o enorme fascínio pela própria história e herança familiar. De fato, desde o início da carreira, quando apresentou os clipes de Human e Shahmaran, foi fazendo uso de elementos da cultura persa que a cantora e compositora residente em Roterdã, na Holanda, conquistou a atenção do público. Um misto de resgate e fina reinterpretação, conceito reforçado com naturalidade em grande parte do material apresentado em Ison (2017), bem-sucedida estreia da artista iraniana, mas que ganha ainda mais destaque nas canções de Shabrang (2020, Twisted Elegance).

Com título inspirado em um poema persa do século XI, em que o príncipe Siyâvush cavalga um enorme cavalo preto, Shabrang, para provar de sua inocência após uma falsa acusação de violência cometida contra sua concubina, o segundo álbum de estúdio de Sevdaliza, assim como Ison, sustenta nas marcadas deixadas por antigos relacionamentos a base para grande parte das faixas. Uma dor essencialmente simbólica, porém, tão excruciante quanto qualquer sensação física, proposta que se reflete logo na imagem de capa do disco, com a cantora posando com um olho roxo.

Não por acaso, Sevdaliza fez de Darkest Hour uma das primeiras canções do disco a serem apresentadas ao público. Entre citações bíblicas e instantes de completa vulnerabilidade, a cantora se revela por completo para o ouvinte, resgatando memórias de um relacionamento ainda recente, dores e desilusões. “É a hora mais escura / Em nossa casa na floresta / Você subiu na árvore do meu coração / E você veio sozinho“, canta enquanto sintetizadores e batidas densas ampliam a forte carga emocional em torno da canção. Uma combinação de angústia e libertação, dualidade que marca o trabalho da artista até a derradeira Comet, com seus versos sempre intimistas.

Claro que isso está longe de parecer uma novidade para quem há tempos acompanha o trabalho de Sevdaliza. A diferença está na forma como a cantora envolve cada composição dentro de um mesmo conceito criativo. São versos que parecem dedicados à mesma pessoa, como fragmentos sentimentais e recordações de um passado ainda recente, doloroso. “Depois de tudo isso, como é possível / Somos estranhos novamente? / É o amor que você espera / E deixa você por algum motivo“, desaba na própria faixa-título do disco, música que sintetiza parte das angústias e desespero vivido pela artista ao longo do trabalho.

Se por um lado essa forte relação entre as faixas reflete o completo domínio de Sevdaliza em relação à própria obra, por outro, não há como ignorar o forte aspecto monotemático e ritmo arrastado em parte expressiva do disco. São poucos os momentos em que a cantora e seu principal parceiro de produção, Mucky, rompem com essa estrutura. Exemplo disso acontece na já conhecida Oh My God, composição em que discute as tensões políticas entre Estados Unidos e Irã. Mesmo a base da canção, adornada pelo uso de batidas eletrônicas e vozes carregadas de efeitos, reflete a capacidade da dupla em se reinventar criativamente.

Livre de qualquer traço de urgência, Shabrang nasce como uma obra de necessária imersão. Instantes em que Sevdaliza preserva a essência do disco anterior, porém, se permite provar de novas possibilidades, conceito que se reflete não apenas no uso aprofundado de elementos da cultura persa, vide os arranjos incorporados em No Way e Habibi, como na capacidade da artista em brincar com a música pop, marca das curiosas Human Nature e Darkest Hour. São incontáveis camadas instrumentais, fragmentos de vozes e inserções sempre minuciosas, como um convite a se perder em um domínio próprio da artista.


Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.