"Drunk Tank Pink"

Ano: 2021
Selo: Dead Oceans
Gênero: Rock, Pós-Punk, Indie Rock
Para quem gosta de: Fontaines D.C. e IDLES
Ouça: Water In The Well e Snow Day
Nota: 7.8

Crítica | Shame: “Drunk Tank Pink”

Mesmo recebido de forma bastante positiva pelo público e crítica, o grande acerto do Shame em Songs of Praise (2018), estreia do grupo britânico, não estava exatamente nas composições entregues pela banda, mas na forma como elas ganhavam novo significado durante as apresentações ao vivo do quinteto londrino. Entre vozes berradas, batidas e guitarras sujas, músicas como One Rizla e Concrete pareciam crescer para além dos limites de estúdio, tratamento que acaba servindo de base para o segundo e mais recente álbum de inéditas da banda, Drunk Tank Pink (2021, Dead Oceans).

Do momento em que tem início, em Alphabet, primeira composição do disco a ser apresentada ao público, até alcançar a derradeira Station Wagon, evidente é o esforço do grupo formado por Charlie Steen, Eddie Green, Charlie Forbes, Josh Finerty e Sean Coyle-Smith em manter o ouvinte preso ao álbum. É como se cada canção servisse de base para a música seguinte, como uma transposição da urgência e força que embala as apresentações ao vivo do quinteto. São blocos de ruídos, vozes sobrepostas e a bateria sempre ritmada, apontando a direção seguida pela banda até o último segundo.

Entretanto, muito se engana quem pensa que tamanha crueza resulte em um álbum livre de qualquer traço de refinamento. Pelo contrário, poucas vezes o som produzido pelo Shame pareceu tão detalhista quanto nas canções de Drunk Tank Pink. Exemplo disso pode ser percebido em Water In The Well. Enquanto os versos são trabalhados de forma cíclica, lembrando as criações de David Byrne em Remain in Light (1980), grande obra do Talking Heads, camadas de guitarras surgem e desaparecem durante toda a execução da faixa, ampliando consideravelmente os limites do registro.

E isso pode ser percebido durante toda a execução do trabalho. Da força descomunal que toma conta de Snow Day, com suas guitarras timbrísticas e quebras bruscas, passando pela atmosfera densa da já citada Station Wagon, música que parece dialogar com o som produzido por nomes como Fontaines D.C. e Iceage, cada composição reflete a capacidade do grupo em brincar com as possibilidades dentro de estúdio. Claro que isso não interfere na produção de faixas deliciosamente simples e rápidas, caso da despretensiosa Great Dog, com pouco menos de dois minutos de duração.

Claro que essa coleção de pequenos acertos não oculta momentos de breve desequilíbrio. Assim como em Songs of Praise, o grande problema de Drunk Tank Pink está na forma como o grupo insiste em uma mesma base estrutural durante parte expressiva da obra. São canções que partem de uma abertura frenética, encolhem por alguns segundos e reservam os minutos finais para um momento de virada e novo reforço às guitarras, sempre acompanhadas por coros de vozes. De Nigel Hitter a March Day, de Water In The Well a Snow Day, evidente é o padrão adotado pela banda. São poucas as canções que seguem por um caminho diferente, como em 6/1 e Harsh Degrees, garantindo ao álbum momentos de necessário frescor.

Contudo, uma vez imerso no interior do trabalho, difícil não se deixar conduzir pelo som produzido pelo quinteto. Da construção dos arranjos à angústia explícita nos versos, sempre consumidos pelo tédio do cotidiano e momentos de maior solidão, tudo parece pensado para envolver o ouvinte, prontamente arrastado para dentro da obra. O próprio James Ford (Foals, Arctic Monkeys), produtor do disco, contribui para o fortalecimento do álbum, dando maior destaque às guitarras e blocos de ruídos que invadem os ouvidos. Canções que preservam a essência e parte da estrutura do registro que o antecede, porém, provando de novas possibilidades.