"Yes"

Ano: 2020
Selo: DDS
Gênero: Eletrônica, Techno, Deep House
Para quem gosta de: DJ Python e Leon Vynehall
Ouça: Lake 2 e Yes
Nota: 8.0

Crítica | Shinichi Atobe: “Yes”

Em atuação desde o início dos anos 2000, quando revelou ao público uma série de composições isoladas e discos como Butterfly Effect (2014) e From the Heart, It’s a Start, a Work of Art (2017), Shinichi Atobe segue em um misto de conforto e constante desconstrução da própria identidade artística. Canções sempre marcadas por camadas de sintetizadores, texturas e pequenas sobreposições estéticas que vão da deep house ao dub techno em uma linguagem própria do produtor. Instantes em que o artista japonês continua a testar os limites da própria obra, conceito que volta a se repetir com a chegada do quarto e mais novo registro de inéditas, Yes (2020, DDS).

Trabalho menos hermético de Atobe até aqui, o álbum de sete faixas nasce como um complemento ao material entregue no antecessor Heat (2018). São composições que pervertem o caráter experimental dos primeiros registros autorais em busca de uma linguagem cada vez mais acessível. Do uso ensolarado dos sintetizadores e micro-ambientações que convidam o ouvinte a dançar, poucas vezes antes o som produzido pelo artista pareceu tão leve, como um pano de fundo instrumental para um cenário à beira mar ou um momento de breve agitação no início da noite.

Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade logo nos primeiros minutos do disco, na atmosférica Lake 2. Do uso das batidas ao tratamento dado aos sintetizadores, cada elemento da composição parece pensado para capturar a atenção do ouvinte, conduzido em direção às pistas. Mesmo a guitarra litorânea que corre ao fundo do registro parece contribuir para esse resultado. Pouco menos de sete minutos em que Atobe dialoga com uma parcela maior do público, porém, preservando o mesmo detalhismo explícito em From the Heart, It’s a Start, a Work of Art e qualquer outro registro da década passada, como o ótimo World (2016).

Dentro desse cenário, surgem faixas como a também acessível Rain 3, canção que encanta pela leveza dos elementos, batidas e formas instrumentais, mas que cresce no uso de pequenas repetições e formas sintéticas tratadas de maneira inexata. A própria faixa de encerramento do disco, Ocean 1, surge como um claro exemplo da busca de Atobe por novas possibilidades dentro do disco. Com um pé nos nos 1980, a canção perverte o uso marcado das batidas para mergulhar em incontáveis camadas de sintetizadores, melodias e fragmentos cuidadosamente sampleados.

Claro que essa busca por uma sonoridade cada vez mais acessível não interfere na entrega de faixas marcadas por pequenas experimentações. É o caso da introdutória Ocean 7, composição regida pelo uso inexato dos sintetizadores e programações eletrônicas, como uma fuga do restante da obra. Mesmo a faixa-título do disco, Yes, sustenta nos minutos iniciais um parcial regresso ao dub techno apresentou o trabalho de Atobe nos anos 2000, conceito que volta a se repetir mais à frente, na curtinha Loop 1, canção que mostra a capacidade do produtor japonês em brincar com as possibilidades mesmo em um curto intervalo de tempo.

Ponto de equilíbrio entre o que há de mais curioso e musicalmente acessível dentro da curta discografia de Atobe, Yes marca o início de uma nova fase na carreira do produtor oriental. Sem necessariamente perder o detalhismo explícito em algumas de suas principais obras, o artista estabelece pequenas brechas que estimulam a chegada de uma nova parcela do público. Instantes em que o ouvinte vai das pistas ao parcial recolhimento em uma estrutura totalmente imprevisível, como se cada composição entregue ao longo do trabalho servisse de passagem para um novo território criativo.