"Coruja Muda"

Ano: 2019
Selo: EAEO Records / YB Music
Gênero: Rock, MPB, Embolada
Para quem gosta de: Karina Buhr e Alessandra Leão
Ouça: Só É Gente Quem Se Diz e Tempo Bom Redondin
Nota: 8.8

Crítica | Siba: “Coruja Muda”

Em um cenário de caos político onde a realidade é constantemente negada e substituída por notícias falsas enviadas por aplicativos, ganha quem consegue tratar do óbvio por meio das metáforas e da sutileza poética. Longe de parecer uma surpresa, é exatamente isso que o pernambucano Siba garante ao ouvinte no terceiro álbum de estúdio em carreira solo, Coruja Muda (2019, EAEO Records / YB Music). São versos políticos, divagações cômicas e pequenas crônicas musicadas que utilizam da animalização dos indivíduos como estímulo para uma obra que mesmo maquiada pela alegoria, se revela ao público por completo, sustentando do primeiro ao último verso uma mensagem clara e de fácil compreensão.

Dos bichos da criação a aranha é a mais feia / Mas ela tem uma teia de boa conexão / Que é pra ter informação de todo bicho esquisito / Não posta fake do mito e nem vídeo de alguém que apanha / A internet da aranha só pega mosca ou mosquito“, canta na divertida Só É Gente Quem Se Diz. São versos curtos, rápidos, em que utiliza da simbologia animalesca para explorar o atual cenário político do Brasil. Cigarras, abelhas, muriçocas, patos e macacos que passam por escândalos de corrupção, acordos de delação premiada e instantes de breve revolta, apontando parte da direção temática seguida pelo artista no decorrer da obra.

O mesmo refinamento poético se faz evidente na quinta faixa do disco, O Que Não Há. Em um intervalo de poucos minutos, Siba discute a violência silenciosa da classe média e a falsa sensação de alívio em um cenário onde tudo parece prestes a desmoronar. “Tudo esta melhor embora só pra quem merece / Foi Deus que quis assim, mulher / Tu vê se não te esquece“, provoca enquanto pinta um cenário descritivo de um casal em frente à televisão. “De manhã eu nem falei pra tu / Daquele espelho / Olho nele e vejo um bicho escuro e muito vermelho / Toda vez que eu passo eu fico estranho de repente / Tem alguma coisa errada ou nele ou na gente“, canta enquanto o coro de vozes formado por Alessandra Leão, Mestre Anderson Miguel e Renata Rosa completa: “Aquele espelho, amor / É violência“.

São versos sempre provocativos, fortes, como uma interpretação menos hermética do material entregue no antecessor De Baile Solto (2015), obra em que discute a crise política envolvendo os festejos de Maracatu de Baque Solto no município de Nazaré da Mata. Exemplo disso está em Carcará De Gaiola, música que vai da prisão política de Lula ao encarceramento de qualquer outro líder revolucionário em uma interpretação tão lógica quanto figurativa, proposta que naturalmente garante beleza e força ao disco. Mesmo a nova versão para a já conhecida Toda Vez Que Eu Dou Um Passo O Mundo Sai Do Lugar, uma das grandes composições na carreira de Siba, assume novo direcionamento frente contexto lírico de Coruja Muda.

Dos poucos momentos em que perverte o lirismo político do álbum, Siba estabelece pequenos respiros criativos. É o caso da acolhedora Azda (Vem Batendo Asa), uma versão para a faixa de mesmo nome originalmente lançada em 1971 pelo congolês Franco Luambo e seus parceiros do TPOK Jazz. Em Tempo Bom Redondin, oitava faixa do disco, uma curiosa reflexão sobre a inevitabilidade da passagem do tempo. “Já teve um tempo que atrás do tempo eu andava / Mas o tempo sempre estava no fim da reta sem fim / Eu achava muito ruim viver correndo atrás dele / Dei um pulo e montei nele / E ele ficou redondin”, canta enquanto guitarras e batidas cíclicas abrem passagem para os músicos Mestre Nico (voz, trombone e percussão), Lello Bezerra (guitarra), Rafael Dos Santos (bateria) e Dustan Gallas (teclados), parceiros do artista em parte expressiva da obra.

Necessário, como tudo aquilo que Siba tem produzido desde o amadurecer criativo em Avante (2012), Coruja Muda pinta um minucioso retrato da situação política e cultural do Brasil, porém, preservando a essência festiva que marca os trabalhos do músico pernambucano desde os bons tempos na extinta Mestre Ambrósio. Para além da interpretação particular do artista, um espaço marcado pela colisão de ideias e rica interferência de nomes como Arto Lindsay, Edgar, Chico César, Gui Amabis e João Noronha, proposta que faz do presente álbum uma obra que exige o constante regresso do ouvinte a fim de que possa absorver todas as nuances e versos nunca óbvios que servem de sustento ao disco.