"The Center Won't Hold"

Ano: 2019
Selo: Mom + Pop
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: St. Vincent e Ex Hex
Ouça: Hurry On Home e The Center Won't Hold
Nota: 7.0

Crítica | “The Center Won’t Hold”, Sleater-Kinney

Talvez o grande acerto do Sleater-Kinney durante o lançamento de No Cities to Love (2015) tenha sido o fato do trio norte-americano preservar a essência dos primeiros álbuns de estúdio. Depois de um hiato de uma década, iniciado após a turnê do bem-sucedido The Woods (2005), havia a necessidade da banda, na época composta por Carrie Brownstein (guitarra, voz), Corin Tucker (guitarra, voz) e Janet Weiss (bateria), em não apenas dialogar com antigos ouvintes, como acolher uma nova parcela do público, feito executado com sucesso, vide a boa repercussão em torno de músicas como Bury Our Friends e Surface Envy. Entretanto, passada a euforia em torno do trabalho, que direção seguir?

Em uma tentativa clara de evitar possíveis repetições, o trio convidou Jeff Tweedy, do Wilco, a assinar parte da produção de um novo álbum de estúdio, ideia rapidamente abortada em virtude da boa relação da banda com Annie Erin Clark, do St. Vincent, que assumiu integralmente as gravações do trabalho. O resultado dessa criativa troca de experiências está na composição de The Center Won’t Hold (2019, Mom + Pop), obra que preserva a essência do Sleater-Kinney, porém, reflete a interferência direta da multi-instrumentista, como se Clark tirasse máximo proveito do brinquedo caro que lhe foi dado.

Fortemente influenciado pela plasticidade que marca os últimos trabalhos de St. Vincent, como Masseduction (2017), The Center Won’t Hold segue em uma estrutura conceitualmente acessível, íntima do grande público. São variações melódicas que utilizam de batidas eletrônicas, vozes tratadas como instrumentos e bases sintéticas, proposta evidente em Hurry On Home, música que destaca a presença e identidade musical de Clark como produtora do álbum. Não por acaso, a baterista Janet Weiss decidiu deixar o Sleater-Kinney pouco após as gravações do disco, alegando que a banda passou a seguir uma nova direção criativa.

Perfeita representação dessa mudança imposta pela produtora ecoa com naturalidade em Can I Go On, música que subtrai a bateria de Weiss para valorizar o uso de sintetizadores e guitarras eletrônicas, conceito que vem sendo aprimorado por St. Vincent desde a boa repercussão em torno do álbum Strange Mercy (2011). O mesmo direcionamento criativo acaba se refletindo em Reach Out, composição de essência minimalista que aponta para o pop dos anos 1960, porém, em uma linguagem própria do Sleater-Kinney. Falta peso e a habitual crueza que o grupo parecia ter conquistado durante o lançamento de clássicos como Dig Me Out (1997) e The Hot Rock (1999).

Mesmo partindo de um novo direcionamento criativo, interessante perceber em músicas como Restless um parcial regresso aos primeiros discos do Sleater-Kinney. Do uso das guitarras à poesia confessional, tudo se projeta como um diálogo da banda com o som produzido na segunda metade dos anos 1990. A própria faixa-título do disco, inicialmente guiada pelo uso atmosférico das vozes e batidas, cresce e muda de direção, resgatando a mesma força evidente nas canções de No Cities to Love. Instantes que parecem pensados para tranquilizar e confortar o antigo público da banda.

Pensado como uma tentativa clara de transportar o som produzido pelo Sleater-Kinney para um novo universo criativo, The Center Won’t Hold se divide entre instantes de breve acerto e canções que buscam adaptar o som produzido pela banda para a mesma base conceitual de St. Vincent. Ideias talvez previsíveis musicalmente, porém, interessantes na forma como Tucker e Brownstein se dividem na composição dos versos, fazendo do álbum uma importante reflexão sobre o atual cenário político dos Estados Unidos e a inquietação que naturalmente orienta a experiência de suas realizadoras.



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