"Tyron"

Ano: 2021
Selo: Method / AWGE
Gênero: Hip-Hop, Rap, Trap
Para quem gosta de: Skepta, Octavian e Little Simz
Ouça: Mazza, Cancelled e Feel Away
Nota: 7.6

Crítica | Slowthai: “Tyron”

Responsável por uma das estreias mais bem-sucedidas da cena inglesa na última década, o elogiado Nothing Great About Britain (2019), Slowthai busca expandir os próprios horizontes com a chegada do segundo e mais recente álbum de estúdio. Em Tyron (2021, Method / AWGE), o artista original de Northampton segue de onde parou no primeiro trabalho de inéditas, porém, utiliza das próprias inquietações, medos e deturpada visão de mundo como estímulo para a construção dos versos. São canções ainda íntimas do mesmo lirismo torto e poesia sarcástica que marca o disco anterior, porém, mergulhadas em uma série de conflitos existencialistas.

Não por acaso, o rapper dividiu o trabalho em dois blocos específicos e utilizou do verdadeiro nome, Tyron Kaymone Frampton, como título para o álbum. Com a divisão, Slowthai busca entender melhor a fragmentação da própria identidade como artista e indivíduo. Exemplo disso acontece logo nos primeiros minutos do disco, em Cancelled, colaboração com Skepta em que discute o cancelamento sofrido durante o NME Awards do último ano, e uma síntese clara de tudo aquilo que somos apresentados no registro. Canções que passam pela mente insana do britânico, mas que em nenhum momento deixam de dialogar com o ouvinte.

Você pode me chamar do que quiser, pode dizer o que acha que aconteceu, mas, acima de tudo, eu me conheço. Ao fazer isso, eu descobri em um nível mais profundo. Quando fizemos isso, eu estava em um lugar escuro por causa de tudo que estava acontecendo“, comentou em entrevista à Apple Music. É justamente dentro desse território sombrio que o rapper orienta a primeira metade do álbum. São canções em que os medos e vivências recentes ganham forma e indicam a busca por uma linguagem distinta em relação ao material entregue em Nothing Great About Britain, onde elementos relacionados ao modo de vida inglês atravessavam o disco a todo instante.

Perfeita representação desse resultado pode ser percebido na também colaborativa Mazza. Parceria com o rapper A$AP Rocky, a canção se aprofunda em temas como depressão e uso abusivo de drogas de forma sempre detalhista. “Olha como a merda mudou / Sentir que essas drogas me tornaram melhor do que eu era / Mas nunca senti amor antes dessas drogas“, rima. O mesmo lirismo angustiado pode ser percebido em outras composições ao longo da obra. São faixas como Dead, Vex e Play With Fire em que discute o peso da fama, a corrupção estimulada pelo dinheiro e uma série de transformações recentes estimuladas pelo sucesso de Nothing Great About Britain.

Já a metade seguinte do trabalho, inaugurada pela confessional I Tried, reflete o lado contemplativo e fino toque de sobriedade de Slowthai. A própria base instrumental e construção das batidas parte de uma abordagem distinta, conceito que se reflete com naturalidade em músicas como Focus e Terms, mas que ganha ainda mais destaque em Feel Away. Bem-sucedido encontro com James Blake e a dupla Mount Kimbie, a canção transporta o som produzido pelo rapper britânico para um novo território criativo, como uma propositada fuga da crueza explícita não apenas no primeiro bloco do disco, mas em grande parte do repertório entregue no álbum anterior.

Se por um lado essa divisão conceitual reflete a potência criativa do rapper, por outro, Tyron peca pelo aspecto monotemático de suas metades. É como se tudo girasse em torno de um limitado conjunto de ideias, tornando a audição do álbum inevitavelmente previsível. Curioso perceber em Nothing Great About Britain uma obra que transita por esses mesmos dois extremos, porém, de forma alternada, proposta que garante maior dinamismo e força ao registro. Contudo, uma vez tragado para dentro do estranho mundo de Slowthai, difícil não se deixar conduzir pelos temas detalhados pelo artista, conceito que se reflete tanto nos momentos de maior celebração como instantes de caos.

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