"Believer"

Ano: 2021
Selo: XL Recordings
Gênero: Art Pop, Eletrônica, Experimental
Para quem gosta de: Kelela, Yaeji e Arca
Ouça: Believer, Flashing e Max
Nota: 7.8

Crítica | Smerz: “Believer”

O Smerz é um desses projetos da cena escandinava que poderia facilmente se transformar em um novo fenômeno da música pop. Poderia, não fosse o interesse de Catharina Stoltenberg e Henriette Motzfeldt em justamente perverter parte dos elementos que alavancaram a obra de artistas como Tove Lo, Icona Pop e outros nomes próximos. E isso se reflete em toda a sequência de lançamentos apresentados pela dupla norueguesa que hoje reside em Copenhague, na Dinamarca. Trabalhos como Okey (2017) e Have Fun (2018) que evocam as criações de Rihanna e outros personagens de estaque do novo R&B, porém, partindo de uma abordagem essencialmente torta, própria das duas colaboradoras.

Parte expressiva desse resultado pode ser percebido nas canções de Believer (2021, XL Recordings), primeiro álbum de estúdio da dupla. Concebido em um intervalo de poucos meses, o registro concentra o que há de mais delirante e estranhamente atrativo na obra do Smerz. São canções que incorporam elementos típicos da música pop, porém, estabelecem no uso fragmentado das batidas, sintetizadores e vozes atmosféricas a passagem para um território próprio de Stoltenberg e Motzfeldt. Instantes em que as duas artistas estreitam a relação com o público, mesmo inclinadas à permanente corrupção das ideias, busca por improvisos e quebras instrumentais.

Uma das primeiras composições do disco a serem apresentadas ao público, a própria faixa-título do álbum sintetiza parte expressiva desse resultado. São pouco mais de quatro minutos em que a dupla atravessa as pistas, brinca com a construção ritmada das vozes e arranjos de cordas, porém, sutilmente invade um território marcado pela criativa desconstrução dos elementos. São ruídos eletrônicos e maquinações sombrias que parecem jogar com a interpretação do público, conceito que se reflete tanto nos momentos de maior calmaria da obra, caso da agridoce Max, como nos instantes de evidente turbulência, marca de faixas como Hester.

Por vezes íntimo de outros exemplares recentes da produção eletrônica, como Oneohtrix Point Never e Arca, a estreia do Smerz é uma obra que chama a atenção pela forma como cada composição revela ao público um universo de pequenos detalhes. São faixas essencialmente curtas, porém, geradas a partir da criativa sobreposição de ideias e elementos extraídos de diferentes campos da música. Perfeita representação desse resultado pode ser percebida na sequência composta por The Favourite e Rap Interlude. Pouco mais de dois minutos em que a dupla vai do uso de orquestrações sintéticas à la Wendy Carlos ao rap de forma sempre atrativa.

Dentro desse cenário marcado pelas possibilidades, interessante perceber a forma como Stoltenberg e Motzfeldt utilizam dos próprios sentimentos como importante componente de diálogo com o ouvinte. São canções consumidas pela melancolia dos temas, conceito reforçado de maneira bastante expressiva em Flashing. “Eu não / Vejo você / Chegue perto / Todas as coisas que eu digo importam / Você não / Precisa de mim / Para ser tudo isso“, cresce a letra da canção em meio a camadas de sintetizadores e instantes de parcial recolhimento, estrutura que se reflete em outros momentos ao longo da obra, como em Sonette e Max, essa última, logo na abertura do disco.

Deliciosamente estranho, como tudo aquilo que a dupla norueguesa tem produzido desde os primeiros registros autorais, Believer não apenas preserva a essência torta do Smerz, como aponta a direção para os futuros trabalhos de Stoltenberg e Motzfeldt. Do momento em que tem início, nas ambientações de Guitarriff, até alcançar a derradeira Hva Hvis, cada composição do disco funciona como um precioso exercício de criação e busca por novas possibilidades. Canções que vão do R&B à produção eletrônica, do uso de temas orquestrais ao pop sem necessariamente se apegar a um conceito ou gênero específico.

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