"Fresia Magdalena"

Ano: 2021
Selo: Technicolour
Gênero: Eletrônica, House, Dance
Para quem gosta de: Ela Minus e Kelly Lee Owens
Ouça: By Your Side e La Perla
Nota: 7.8

Crítica | Sofia Kourtesis: “Fresia Magdalena”

De origem peruana, porém, residente em Berlim, na Alemanha, Sofia Kourtesis tem feito dessas diferentes vivências a base para o próprio trabalho. São canções que utilizam de elementos da cultura latina, mas que há todo momento estreitam a relação com os mais variados nomes da produção eletrônica, como a produtora colombiana Ela Minus e a artista inglesa Kelly Lee Owens. Composições que transitam por entre gêneros de forma essencialmente detalhista, tratamento que ganha ainda mais destaque com a chegada de Fresia Magdalena (2021, Technicolour), registro em que confessa algumas de suas próprios referências criativas, contudo, preservando tudo aquilo que tem sido produzido desde os primeiros registros autorais, caso do ainda recente Sarita Colonia EP (2020).

E essa riqueza no processo de composição se reflete logo nos primeiros minutos do trabalho, em La Perla. Inaugurada em meio a camadas de sintetizadores, melodias discretas e batidas cuidadosamente encaixadas pela artista peruana, a canção pouco a pouco se transforma em um colorido mosaico de pequenos detalhes e elementos extraídos do mais variados campos da música. São fragmentos de vozes cantadas em espanhol, ruídos e captações que se revelam ao público em uma medida própria de tempo, sem pressa. Instantes em que Kourtesis mergulha nas ambientações etéreas de Owens e outros nomes próximos, porém, utiliza do mesmo caráter abrasivo que aponta para diferentes realizadores da produção latina, vide os temas incorporados em Pop Negro (2010), de El Guincho.

Entretanto, longe de abraçar um único gênero ou sonoridade específica, Kourtesis faz de cada composição um objeto de destaque, transitando por diferentes campos da música. Exemplo disso acontece em By Your Side. Principal composição do trabalho, a faixa reflete o que há de mais sensível e referencial na obra da produtora. São pouco mais de seis minutos em que a artista parece dialogar com a mesma base nostálgica explícita em registros como Since I Left You (2000), do coletivo australiano The Avalanches, e Discovery (2001), da dupla francesa Daft Punk. Do uso dos sintetizadores à criativa fragmentação dos samples, tudo soa como um aceno para o passado, direcionamento que acaba se refletindo em outros momentos ao longo do material, como na canção seguinte, Nicolas.

Passagem para o lado mais experimental do registro, a música utiliza de uma série de elementos originalmente testados em Sarita Colonia, contudo, estabelece no uso picotado das melodias e captações de campo um importante componente de transformação na obra de Kourtesis. São pouco menos de cinco minutos em que a artista se concentra na montagem de pequenos atos isolados e ambientações que passeiam em meio a abstrações que estranhamente convidam o ouvinte a dançar. Mesmo o direcionamento dado aos sintetizadores assume um tratamento distinto. É como se a produtora peruana adentrasse um território psicodélico e essencialmente torto, estrutura que faz lembrar de parte do material produzido por nomes como Nicolas Jaar e DJ Koze.

Claro que essa busca por uma sonoridade deliciosamente torta não interfere na produção de músicas que parecem prontas para as pistas. É o caso de Juntos. Da construção das batidas ao uso das vozes, tudo parece pensado para fazer o ouvinte dançar. Entretanto, assim como em toda a sequência de faixas que abastecem o registro, a grande beleza da obra está na forma como a artista se concentra na produção de momentos de maior experimentação. São melodias carregadas de efeitos e coros de vozes que se projetam como um complemento ao uso das batidas e sintetizadores. Instantes em que a produtora reflete o que há de mais acessível no próprio trabalho, porém, de forma pouco usual e ainda delirante, como uma extensão do material entregue em La Perla e Nicolas.

Com Dakotas como faixa de encerramento do trabalho, Kourtesis revela ao público uma soma conceitual de tudo aquilo que é apresentado ao longo de Fresia Magdalena. Composição mais extensa do registro, a faixa de quase sete minutos parte de melodias transcendentais e vozes tratadas como um importante componente criativo, mas que em nenhum momento seguem por uma estrutura linear. São delicadas camadas instrumentais que surgem e desaparecem durante toda a execução do material. Instantes de evidente delírio que antecedem momentos de maior diálogo com o público, como uma soma natural de tudo aquilo que a produtora tem desenvolvido desde os primeiros registros autorais. Um misto de passado e presente que ainda deixa o caminho aberto para os futuros lançamentos da artista.

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