"Sombrou Dúvida"

Ano: 2019
Selo: OAR
Gênero: Rock Alternativo, Rock Psicodélico
Para quem gosta de: Carne Doce e Bike
Ouça: Sombra ou Dúvida e Tardança
Nota: 8.5

Crítica | “Sombrou Dúvida”, Boogarins

As chances de eu fugir daqui / São nulas“. Os versos lançados por Dinho Almeida (guitarra e voz) logo nos primeiros minutos de As Chances, faixa de abertura de Sombrou Dúvida (2019, OAR), traduzem com naturalidade o delirante desejo do público em se perder pelo interior do quarto álbum de estúdio do grupo goiano Boogarins. Enigmático e torto, como uma extensão natural de tudo aquilo que o quarteto – completo por Benke Ferraz (guitarra e sintetizadores), Raphael Vaz (baixo) e Ynaiã Benthroldo (bateria) –, vem produzindo desde o antecessor Lá Vem a Morte (2017), o trabalho que conta com co-produção de Gordon Zacharias mostra a capacidade da banda em capturar a atenção do ouvinte sem necessariamente fazer disso o principio para uma obra rasa.

Concebido em meio a camadas instrumentais, vozes sobrepostas, ruídos e captações abstratas, o registro marcado pela colorida colisão de ideias parte de uma estrutura conceitualmente restrita para mergulhar em pequenas reinterpretações de uma mesma base poética e instrumental. São versos que se repetem, arranjos reciclados e a desconfortável sensação de familiaridade, como se o ouvinte tateasse as paredes de um extenso labirinto criativo, proposta que vem sendo aprimorada pela banda desde a estreia com As Plantas Que Curam (2013).

Não por acaso, os mesmos versos apresentados em Sombra ou Dúvida voltam a se repetir na faixa seguinte do disco, Invenção — “Existe um desgaste do novo / Se repete e dá nojo / E isso você não quer ver / Existe um deslumbre dos bobos / Fajuto e grandioso / E isso já engole você“. A diferença está na forma como o grupo atribui novo significado dentro de cada composição. São fragmentos existencialistas, instantes que discutem a superficialidade das relações humanas ou mesmo o permanente senso de renovação exigido de qualquer artista. Um reduzido catálogo poético entregue à reinterpretação do próprio ouvinte.

Mesmo dentro desse cenário marcado pelo permanente resgate de ideias e pequenas corrupções estéticas, músicas como Dislexia ou Transe transportam o som produzido pelo grupo goiano para um novo território criativo. São guitarras psicodélicas que se completam pela inusitada inserção de uma viola caipira, sonoridade que faz lembrar um encontro entre The Smiths com a abertura de Globo Rural. Em Te Quero Longe, nona composição do disco, uma fuga declarada de possíveis excessos, como uma visita breve aos instantes de maior calmaria detalhados há quatro anos, em Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos (2015).

Independente da direção percorrida pela banda, Sombrou Dúvida é um trabalho que exige tempo e uma audição minuciosa até que o ouvinte absorva todas as camadas e variações quase imperceptíveis que se escondem por entre as brechas da disco. São vozes tratadas como instrumentos, na segunda metade As Chances; em Nós, sexta composição do álbum, ruídos eletrônicos e distorções abafadas que fazem lembrar o trabalho de Giovani Cidreira em Mix$take (2019), obra que conta com a produção de Benke Ferraz; na já conhecida Tardança, guitarras que encolhem e crescem a todo instante, tornando a experiência do ouvinte sempre incerta.

Longe de qualquer linearidade, conceito explícito logo na imagem de capa do disco, trabalho de Beatriz Perini, Sombrou Dúvida mostra uma banda em pleno domínio da própria obra. São composições de essência caseira (Passeio), variações psicodélicas que parecem dialogar com uma parcela maior do público (Invenção) ou mesmo instantes de profundo experimento e provocação (Nós). Variações instrumentais e poéticas que estabelecem diferentes pontes criativas com outros trabalhos do grupo, mas que a todo momento regressam ao ambiente particular do presente álbum.