"Something Like a War"

Ano: 2019
Selo: Female Energy
Gênero: R&B, Soul, Pop Alternativo
Para quem gosta de: Blood Orange, Kelela e Robyn
Ouça: Hard to Believe e Raise Up
Nota: 7.0

Crítica | “Something Like a War”, Kindness

Declaradamente inspirada* pela produção dos anos 1970 e 1980, Adam Bainbridge poderia facilmente seguir a cartilha de outros produtores do gênero, revisitando o passado de forma estilística, como um preguiçoso resgate de tendências. Entretanto, desde que deu início ao trabalho como Kindness, a artista inglesa vem se revezando na entrega de um material deliciosamente versátil e autoral, proposta que naturalmente resgata uma série de conceitos há muito consolidados no R&B/soul, porém, tratados de forma transformada, como uma propositada fuga do óbvio e construção da própria identidade musical.

Não por acaso, Bainbridge decidiu inaugurar o terceiro álbum de estúdio da carreira, Something Like a War (2019, Female Energy), com a provocativa Sibambaneni. “Haverá pessoas que dirão: ‘você não mistura isso com aquilo’. E você dirá: observe‘”, anuncia a voz que antecipa a soma de vozes sobrepostas e orquestrações sampleadas, como um preparativo para o material que ganha ainda mais destaque na crescente Raise Up. São pouco menos de quatro minutos em que a artista inglesa brinca com a criativa colagem de ideias, estrutura que naturalmente aponta para o trabalho de nomes como Hercules and Love Affair, Blood Orange e demais interessados em revisitar o passado.

Perfeita representação desse cuidado de Bainbridge em colidir diferentes fórmulas instrumentais ecoa com naturalidade em Softness as a Weapon. Concebida em meio a batidas e vozes cíclicas que servem de base para a solução de metais e ruídos eletrônicos trabalhados ao fundo da composição, a faixa parece costurar três ou mais décadas de referências de forma propositadamente inexata, estrutura que se completa pela breve interferência de Robyn. Trata-se de uma clara tentativa da Kindness em resgatar algumas de suas principais referências criativas, fazendo disso o estímulo para um desdobramento particular.

O mesmo comprometimento estético se reflete com naturalidade em Hard To Believe. Concebida em parceria com Jazmine Sullivan e Sampha, a canção não apenas resgata uma série de elementos originalmente testados por Michael Jackson no fim da década de 1980, como se entrega ao R&B de The Weeknd e outros nomes recentes da música negra. Um som cuidadoso e sensível, minúcia que se reflete no lirismo melancólico que toma conta dos versos. “Não tenho certeza de que você sabe o que deseja / Mas tenho certeza de que sou o que você precisa / E provavelmente estou fazendo muito / Mas não posso ajudar do jeito que me sinto“, cresce a letra da canção enquanto a linha de baixo suculenta funciona como um estímulo para a inserção de guitarras e sintetizadores cíclicos, sempre precisos.

Partindo desse colorido mosaico de ideias, Bainbridge garante ao público uma obra conceitualmente ampla. Canções que ora apontam para as pistas de dança, ora refletem o cuidado da artista na entrega de um som contemplativo, como uma fuga de possíveis excessos. Frações instrumentais e poéticas que se abrem para a colaboração constante de nomes como Robyn, em The Warning e Cry Everything; Alexandria, na ótima Who You Give Your Heart To), Cosima, em No New Lies; Nadia Nair, na derradeira Call It Down e, principalmente, Seinabo Sey, parceira em Lost Without.

Obra de momentos, como tudo aquilo que Bainbridge tem produzido desde a estreia com World, You Need a Change of Mind (2012), Something Like a War encanta pelo direcionamento estético e reciclagem melódica adotado pela artista, porém, custa a impressionar o ouvinte logo em uma primeira audição. É necessário tempo e considerável esforço para absorver todas as nuances detalhadas pela produtora durante toda a execução da obra. São retalhos instrumentais, rítmicos e poéticos que se abrem para a interferência constante de diferentes colaboradores, fazendo desse conceito inexato o principal estímulo para a composição da obra.


[*] Este artista se define como não binário ou neutro. Pela ausência de uma norma específica na Língua Portuguesa, adotamos pronomes femininos como uma estrutura padrão menos opressiva.