"All Things Being Equal"

Ano: 2020
Selo: Carpark Records
Gênero: Neo-Psicodelia, Experimental
Para quem gosta de: Panda Bear, Spiritualized e MGMT
Ouça: Just Imagine e The Way That You Live
Nota: 7.8

Crítica | Sonic Boom: “All Things Being Equal”

Peter Kember talvez seja um dos responsáveis por moldar a estética da música psicodélica nos anos 2010. Sob o título de Sonic Boom, o cantor, compositor e multi-instrumentista britânico trabalhou na produção de alguns dos registros mais expressivos do período, como Tomboy (2011) e Panda Bear Meets the Grim Reaper (2015), de Panda Bear, Congratulations (2010), do MGMT e, mais recentemente, 7 (2018), último álbum de estúdio do Beach House. Uma seleção de obras marcadas pelo uso instrumental da voz, sintetizadores cósmicos e guitarras sempre carregadas de efeitos, proposta que ganha novo tratamento nas canções de All Things Being Equal (2020, Carpark Records).

Primeiro registro de inéditas de Sonic Boom em mais de três décadas, o sucessor de Spectrum (1989) mostra um artista tão delirante e inventivo quanto em início de carreira. São pouco menos de 60 minutos em que Kember convida o ouvinte a flutuar em meio a melodias psicodélicas e instantes de breve contemplação, como um acumulo das experiências e temas instrumentais explorados pelo músico ao longo dos anos. Canções que atravessam a neo-psicodelia da década de 1990 para dialogar com o krautrock e outras experimentações curiosas dos anos 1970.

Não por acaso, Kember inaugura o disco com a detalhista Just Imagine. São quase oito minutos em que o músico britânico apresenta todas as regras do trabalho. Do uso atmosférico da voz, como um mantra, passando pela inserção de sintetizadores e bips eletrônicos, cada fragmento da faixa não apenas evidencia parte da identidade criativa do multi-instrumentista, como confessa algumas de suas principais referências. São ecos de Kraftwerk, NEU! e outros nomes importantes do período. Mesmo o jeito de cantar do artista, semi-declamado, evoca as criações de Brian Eno, no clássico Another Green World (1975), conceito que acaba se refletindo em outros momentos no decorrer da obra.

Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade em Tawkin Tekno, música que dialoga com os clássicos Computer World (1981) e Electric Café (1986), do Kraftwerk, porém, dentro do conceito psicodélico de Sonic Boom. Um criativo cruzamento de ideias, ritmos e referências, proposta que orienta a experiência do ouvinte durante toda a execução do álbum. Exemplo disso pode ser percebido na derradeira I Feel a Change Coming On. Composição mais extensa do disco, a faixa ganha forma em meio a reverberações nostálgicas e fragmentos melódicos que apontam para diferentes campos da música, como um resgate estilístico de tudo aquilo que tem influenciado o artista desde o início da carreira.

Entretanto, é justamente quando perverte parte dessa estrutura, como em The Way That You Live, que All Things Being Equal realmente cresce e encanta o ouvinte. Regida pela força das batidas e melodias acolhedoras, como uma fuga da morosidade explícita em My Echo, My Shadow and Me e On a Summer’s Day, a canção parece capturar a atenção do público logo nos primeiros minutos. É como se Kember despisse a própria obra de qualquer traço de complexidade, emulando de forma sutil o pop radiofônico dos anos 1960, porém, dentro de uma linguagem atualizada, fresca.

O mesmo cuidado acaba se refletindo em outros momentos ao longo da obra, como em Things Like This (A Little Bit Deeper), canção que parece dançar na cabeça do ouvinte, lembrando os antigos trabalhos do músico no extinto Spacemen 3, projeto dividido com Jason Pierce, do Spiritualized. Instantes de maior leveza pontuados por momentos de evidente experimentação, dualidade que garante ritmo e força ao disco, conceito que se reflete tão logo o álbum de início, no pop eletrônico de Just Imagine, passa pela estrutura delirante de músicas como Spinning Coins and Wishing on Clovers e segue até a derradeira I Feel a Change Coming On.