"The Passion Of"

Ano: 2020
Selo: Night School / Thrilling Living
Gênero: Eletrônica, Industrial Techno, Art Punk
Para quem gosta de: The Soft Pink Truth, Liars e Factory Floor
Ouça: Don't Kiss Me In Public e Street Pulse Beat
Nota: 8.6

Crítica | Special Interest: “The Passion Of”

Sangue está na calçada
E sua mandíbula está no chão
Você jurou que não começaríamos uma briga
Mas esta noite foi tão chata

A crueza explícita nos versos de Disco III, música que sucede a introdutória Drama, funciona como um indicativo claro do som incorporado pelo Special Interest em The Passion Of (2020, Night School / Thrilling Living). Segundo e mais recente álbum de estúdio do quarteto formado por Alli Logout (vozes e letras), Nathan Cassiani (baixo), Maria Elena (guitarras) e Ruth Mascelli (produção eletrônica), o trabalho de essência caótica transita por entre ambientações sintéticas, ruídos e paisagens urbanas de forma essencialmente inexata, torta. Instantes em que o grupo original da cidade de Nova Orleães, Luisiana, preserva e ao mesmo tempo perverte tudo o que foi apresentado durante o lançamento do antecessor Spiraling (2018).

Meu corpo sempre foi uma fonte de espetáculo, porque sou gorda, gostosa e as pessoas simplesmente não sabem o que fazer com isso. Eu gosto de desafiar as percepções do que uma pessoa pode ser“, respondeu Logout em entrevista ao Bandcamp. É partindo justamente dessa busca por novas possibilidades que o quarteto orienta a experiência do ouvinte durante toda a execução do trabalho. Composições que partem de uma estrutura pré-definida, porém, estabelecem na permanente desconstrução dos elementos um importante ponto de consolidação da própria identidade criativa do grupo. Em The Passion Of, tudo é permitido.

São canções que funcionam como um convite ao sexo, percorrem as ruas em meio a paisagens descritivas e personagem marginalizados, arrastando o ouvinte para dentro de um cenário consumido por imagens impactantes, sempre viscerais. “Você não vai pegar minha mão áspera e sábia, bebê?“, questiona em Street Pulse Beat, música que nasce como um convite a se perder nesse território particular. São versos curtos, rápidos e cíclicos, como anti-mantras que parecem dançar de maneira frenética na cabeça. Frações poéticas que partem das vivências de cada integrante, principalmente Logout, uma mulher negra, gorda e lésbica.

Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade na curtinha Homogenized Milk, sexta faixa do disco. “O que acontece quando não há mais nada para gentrificar / E o genocídio está ao seu lado, se preparando? / Tenho certeza que você está rindo agora / Porque sua vida monótona já desmoronou“, ataca. São pouco menos de dois minutos em que Logout e seus parceiros de banda partem de um olhar crítico sobre a nossa sociedade para mergulhar em um chamado à violência como forma de ruptura e transformação – “Definindo violência agora“. Canções sempre regidas pela fúria dos versos, conceito que se reflete até a política With Love, inquietante faixa de encerramento do disco – “Além do sangue, lutamos / Rumo à libertação / Para libertar os milhões das gaiolas de massa“.

O mesmo impacto na composição dos versos acaba se refletindo na identidade musical adotada pelo quarteto. Nada contido, como uma expansão do material entregue no disco que o antecede, The Passion Of mergulha em uma espiral ruidosa que vai do industrial techno ao art punk em uma linguagem violenta, forte. Um turbulento exercício criativo que parte da programação eletrônica de Mascelli, esbarra nas guitarras de Elena e encontram na linha de baixo distorcida de Cassiani uma ponte para o passado. Canções que vão do dance-punk do ESG ao experimentalismo de Sonic Youth e Liars, como se cada fragmento do álbum apontasse para uma direção diferente.

Interessante notar que, mesmo concebido em uma estrutura caótica, The Passion Of mantém firme a consistência e forte relação entre as faixas durante toda sua execução. Partindo de um discurso político que amarra o trabalho de uma ponta à outra, Logout faz com que mesmo criações musicalmente distintas pareçam se conectar no interior do álbum. O resultado desse processo está na entrega de um disco manifesto. Um exercício anárquico que questiona de maneira provocativa diferentes aspectos do comportamento humano, garante visibilidade a núcleos marginalizados e provoca a interpretação do ouvinte mesmo nos momentos de maior calmaria.