"Stranger Things 3"

Ano: 2019
Selo: Lakeshore Records
Gênero: Música Ambiente, Synthpop
Para quem gosta de: John Carpenter e Cliff Martinez
Ouça: Rats, The First I Love You e He's Here
Nota: 8.1

Crítica | “Stranger Things 3”, Kyle Dixon & Michael Stein

Depois de duas temporadas, não seria uma surpresa se Stranger Things começasse a apresentar sinais de cansaço, ainda mais quando lembramos de outras séries originais da Netflix, como House of Cards, Orange is the New Black e Unbreakable Kimmy Schmidt. Entretanto, ao alcançar a terceira e mais recente fase do programa, curioso perceber um amadurecimento na construção da trama, uso dos personagens e fina identidade visual que passeia pelo universo cultural da década de 1980 em meio ao exagero de luzes, cores e referências deliciosamente nostálgicas.

O mesmo cuidado acaba se refletindo no terceiro e mais recente volume da trilha sonora produzida pela dupla Kyle Dixon e Michael Stain. Depois de um registro duplo concebido especialmente para a primeira temporada do programa, lançado em 2016, e de dar sequência ao projeto, na minuciosa segunda edição do seriado, entregue em 2017, os dois produtores, também integrantes do S U R V I V E, decidiram mergulhar na composição de um material ainda mais sombrio e detalhista, como um diálogo natural com a trama da série.

Dentro dessa nova estrutura, sintetizadores que antes compunham um pano de fundo atmosférico e melódico, hoje partem de um direcionamento ritmado e sufocante, como um reforço ao ambiente de tensão que orienta o programa criado pelos irmãos Matt e Ross Duffer. Exemplo disso está na crescente Rats. Inaugurada em meio a ruídos e batidas minimalistas, como um emular do batimento cardíaco, aos poucos, a canção se espalha em um labirinto de sons e texturas atmosféricas, proposta que naturalmente faz lembrar das criações de The Haxan Cloak, Arca e outros nomes recentes do experimentalismo eletrônico.

O mesmo direcionamento claustrofóbico acaba se refletindo em outros momentos ao longo do trabalho. É o caso da aterrorizante He’s Here, música que parece replicar a mesma atmosfera de clássicos do horror, vide a forte similaridade com a obra de John Carpenter nos anos 1980. São faixas curtas, como The Trees Are Moving e Scoops Troop em que Dixon e Stain utilizam desse curto espaço de tempo para detalhar incontáveis camadas instrumentais, ruídos e sobreposições estéticas que rapidamente transportam o ouvinte para o núcleo da obra.

Claro que essa busca por um som denso e assustador não interfere na produção de faixas sensíveis e naturalmente íntimas de outros espectros da produção cultural dos anos 1980. É o caso da própria faixa de abertura do disco, Boys and Girls, com seus sintetizadores graciosos e variações melódicas que servem de introdução ao universo da série. Em The First I Love You, camadas instrumentais que parecem emular um coro de vozes, reforçando o romantismo explícito no título da canção. A própria sequência de encerramento do disco, em We Don’t Understand Each Other e Aftermath, reflete o cuidado da dupla no encaixe de cada elemento.

Mesmo desprovido do ineditismo presente nos primeiros registros da série, em Stranger Things 3, Kyle Dixon e Michael Stain se permitem provar de novas possibilidades dentro de estúdio, tensionando a própria zona de conforto. São variações instrumentais que encolhem e crescem a todo instante, refletindo o cuidado da dupla na composição de temas essencialmente detalhistas, proposta que força um permanente regresso do ouvinte a fim de perceber todas as nuances que se escondem por entre as brechas da obra.