"Aporia"

Ano: 2020
Selo: Asthmatic Kitty
Gênero: Eletrônica, Música Ambiente, New Age
Para quem gosta de: Brian Eno e Kaitlyn Aurelia Smith
Ouça: The Runaround e Climb The Mountain
Nota: 6.0

Crítica | Sufjan Stevens & Lowell Brams: “Aporia”

Conhecido pelo lirismo confessional e trabalhos sempre regidos pelos detalhes, de tempos em tempos, Sufjan Stevens abandona parte dessa estrutura para investir em uma seleção de obras marcadas pela propositada ruptura criativa. Foi assim com o lançamento de Enjoy The Rabbit (2004), logo no início da carreira, no experimentalismo atmosférico de The BQE (2009), anos mais tarde, ou mesmo no ainda recente Planetarium (2017), misto de performance e registro cósmico que contou com a colaboração dos músicos Bryce Dessner, Nico Muhly e James McAlister.

É partindo justamente desse mesmo direcionamento incerto que Stevens se une ao próprio padrasto, o músico Lowell Brams, eternizado em Carrie & Lowell (2015), para a composição do climático Aporia (2020, Asthmatic Kitty). Como o título indica – do grego “situação insolúvel” ou “sem saída” –, o registro de 40 minutos encontra no uso de abstrações eletrônicas, ruídos e fórmulas atmosféricas a passagem para um ambiente marcado pela criativa sobreposição de ideias, todas inexatas. São estruturas não lineares que se espalham em meio a sintetizadores, batidas e vozes ocasionais, minúcia que se reflete até a derradeira The Lydian Ring.

Inspirado de maneira confessa em diferentes exemplares da New Age, vide a forte similaridade com alguns dos principais trabalhos de Enya e Vangelis, como Watermark (1988) e Spiral (1977), Aporia segue uma medida própria de tempo, fazendo de cada composição um objeto precioso, a ser absorvido individualmente. São faixas curtas, como For Raymond Scott e Palinodes, ou mesmo criações um pouco maios extensas, caso de Afterworld Alliance e Climb The Mountain, em que Stevens e Lowell utilizam de texturas atmosféricas e rupturas ocasionais para capturar a atenção do ouvinte.

Exemplo disso está na já conhecida The Runaround. Uma das primeiras composições do disco a serem apresentadas ao público, a faixa de quase quatro minutos parte de uma ambientação quase cristalina para se perder em meio a batidas sintéticas, vozes tratadas como instrumentos e instantes de doce experimentação, como um breve diálogo com o pop eletrônico de The Age of Adz (2010). É como se diferentes composições fossem trabalhadas dentro de um mesmo ambiente conceitual, estrutura que se repete em outros momentos ao longo da obra, como em The Red Desert e na curtinha Ataraxia, música que utiliza da repetição dos elementos como principal alicerce criativo.

Mesmo pontuado pela inserção de faixas detalhistas, não há como ignorar a forte morosidade que rege o disco, como se tudo fosse resolvido em um limitado conjunto de ideias e experiências instrumentais. Salve exceções, como as já citadas The Runaround e Climb The Mountain, Aporia segue uma estrutura bastante previsível, por vezes tediosa. Canções que partem de uma base atmosférica, adotam uma linguagem abstrata e, por fim, silenciam. Não por acaso, Stevens fez da ambiental The Unlimited a primeira composição do disco a ser apresentada ao público. Trata-se de uma clara síntese de tudo aquilo que orienta a experiência do ouvinte ao longo da obra, como um rascunho pontuado por pequenas variações melódicas.

Concebido e gravado sem grandes pretensões, Aporia assume um caráter de esboço conceitual, como um exercício criativo da capacidade de Stevens em se reinventar dentro de estúdio. Instantes em que o músico e seu principal parceiro de composição preservam parte da atmosfera detalhada no antecessor Planetarium (2017), porém, adotam uma sonoridade ainda mais econômica. São canções de essência minimalista, sempre contidas, proposta que naturalmente deve agradar quem busca por um refúgio temporário, mas que em nenhum momento parece capaz de surpreender o ouvinte.