"Leaving Meaning"

Ano: 2019
Selo: Young God / Mute
Gênero: Rock Alternativo, Art Rock, Pós-Rock
Para quem gosta de: Nick Cave & The Bad Seeds e Godspeed You! Black Emperor
Ouça: What Is This? e The Hanging Man
Nota: 8.0

Crítica | Swans: “Leaving Meaning”

Desde que deu fim ao longo período de hiato que silenciou as atividades do Swans durante mais de uma década, Michael Gira tem se revezado na produção de obras cada vez mais complexas, propositadamente extensas, porém, sempre detalhistas. São registros como o introdutório My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky (2010), o completo preciosismo que embala as canções de The Seer (2012) e, principalmente, a busca do multi-instrumentista nova-iorquino em adotar uma sonoridade marcada pelo delírio, base dos experimentais To Be Kind (2014) e The Glowing Man (2016), esse último, com quase duas horas de duração.

Satisfatório perceber nas canções de Leaving Meaning (2019, Young God / Mute), primeiro trabalho de inéditas do artista norte-americano em três anos, um natural resgate de todas essas experiências. Hoje cercado de novos colaboradores, incluindo os músicos Kristof Hahn (guitarras), Larry Mullins (bateria e percussão) e Yoyo Röhm (baixo e teclados), além, claro, de diferentes vozes e instrumentistas convidados que surgem e desaparecem durante toda a execução da obra, Gira entrega ao público uma obra que exige ser desvendada.

São ambientações detalhistas, ruídos ocasionais, vozes tratadas como instrumentos e a percussão cada vez mais destacada, como um estímulo para a inserção de guitarras consumidas pela forte distorção. Um verdadeiro labirinto sensorial, cuidado que se reflete tão logo o registro tem início, na introdutória Hums, passa pela composição de músicas extensas, caso de The Nub e a própria faixa-título do disco, e segue até a derradeira My Phantom Limb. Instantes em que Gira e seus parceiros de estúdio sutilmente ampliam tudo aquilo que vem sendo detalhado desde o ressurgimento da banda, com My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky.

A principal diferença em relação ao material entregue pelo músico nos últimos anos está na forma como Leaving Meaning se divide entre canções puramente soturnas e faixas guiadas pela leveza dos elementos, alternando entre esses dois extremos. Vem justamente desse primeiro grupo a já conhecida The Hanging Man. Marcada pela força dos arranjos, guitarras estratégicas e a linha de baixo destacada, a canção não apenas resgata uma série de elementos originalmente testados durante o lançamento de The Seer, como traz de volta parte da atmosfera densa que marca os primeiros trabalhos de estúdio da banda, caso de Filth (1983) e Children of God (1987).

Interessante perceber em faixas como It’s Coming It’s Real o completo oposto desse mesmo direcionamento estético. Da leveza na composição dos arranjos ao uso pontual de xilofones e vozes trabalhadas de forma atmosférica, tudo parece pensado para impressionar o ouvinte, efeito do lirismo detalhista de Gira, sempre marcado pelo uso de referencias religiosas, passagens literárias e a utilização de elementos da natureza como forma de traduzir os sentimentos expressos pelo artista. “A carne está rasgada / Oceanos desprezam seu amor / Estamos nadando através / De suas piscinas ao luar / As marés de fosfeno / A escrita em seus olhos“, canta na delicada What Is This?, canção que sintetiza a força sentimental e esmero na composição de cada verso.

Mesmo conceitualmente polido quando próximo do material entregue em The Glowing Man, Leaving Meaning revela ao público uma seleção de músicas que parecem deslocadas do restante da obra. É o caso de Some New Things. Da urgência na composição das guitarras ao uso acelerado das batidas, tudo soa como uma fuga do som detalhista que serve de alicerce para o trabalho. Não por acaso, a canção acabou deixadas de fora da edição em vinil do álbum. Surgem ainda registros como Sunfucker, faixa que mais parece replicar o som produzido pelo artista nos últimos discos do que ampliar esse universo criativo. Instantes de breve desequilíbrio que prejudicam o rendimento da obra, mas que em nenhum momento ocultam a força criativa e riqueza de detalhes que marcam a obra de Gira.



Leave a Reply