"Nó Sem Ponto II"

Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: Pós-Rock, Rock Instrumental, Math Rock
Para quem gosta de: Mahmed, SLVDR e Kalouv
Ouça: Caiu da Escada Rindo e José
Nota: 8.0

Crítica | Taco de Golfe: “Nó Sem Ponto II”

Entre camadas de guitarras cristalinas, um universo de pequenos detalhes a serem desvendados pelo ouvinte. Dois anos após o lançamento do primeiro álbum de estúdio da carreira, Folge (2018), Alexandre Damasceno (bateria), Filipe Williams (baixo) e Gabriel Galvão (guitarras) estão de volta com um novo trabalho do Taco de Golfe: Nó Sem Ponto II (2020, Independente). Marcado pela minúcia dos elementos, o registro de dez faixas preserva a essência cirúrgica dos últimos lançamentos da banda de Aracaju, como Erro e Volto (2019) e Cato (2020), porém, estabelece no uso de ambientações labirínticas e instantes de evidente delírio um importante componente de aprimoramento estético.

Exemplo disso está na abordagem psicodélica que toma conta de Caiu da Escada Rindo, terceira faixa do disco. Entre guitarras cíclicas de Galvão, talvez emulando um mantra, perceba como a linha de baixo de Williams corre por entre as brechas da canção, contornando as batidas sempre versáteis de Damasceno. Um delicado exercício criativo que dialoga com a essência de veteranos do pós-rock, como Mogawai e Tortoise, mas que em nenhum momento perverte o frescor e fina identidade do trio sergipano.

É partindo desse mesmo direcionamento temático que a banda orienta a experiência do ouvinte até a autointitulada música de encerramento. São canções que utilizam de uma abordagem simples, porém, sustentam na manobra calculada dos instrumentos um importante reforço conceitual. Nada é por acaso. Da aceleração breve, em Cortes, passando pelo doce recolhimento de Antes Vinha, cada composição do disco parece pensada de forma a conduzir a experiência do ouvinte. São variações instrumentais que encolhem e crescem a todo instante, como se tudo fizesse parte de uma extensa criação.

De fato, difícil não pensar nas canções de Nó Sem Ponto II como parte de um elaborado conjunto de ideias. São faixas talvez econômicas nos minutos iniciais, vide o minimalismo de José, composição que lembra os trabalhos mais recentes do Battles, mas que ganham forma à medida em que o registro avança. Exemplo disso está na densa Minhas Costas D’água, música que parte de uma percussão ritualística, cresce no uso destacado das guitarras e segue em meio a ambientações urbanas, como um preparativo para o som caótico que ganha forma nos instantes finais do disco, na já citada faixa-título. Um turbulento conjunto de ideias que preserva e perverte tudo aquilo que o trio havia testado em Folge.

É justamente por se tratar de uma obra tão complexa que Nó Sem Ponto II exige uma audição atente por parte do ouvinte. São camadas instrumentais que se revelam ao público em uma medida própria de tempo, estrutura que vai do jazz ao math rock sem necessariamente mergulhar em um conceito específico. Canções que impressionam pelos instantes, como na crueza e constante aceleração de Cortes, sexta faixa do disco, ou no movimento precioso das guitarras, marca da introdutória Grade Grade, música que aponta a direção seguida pelo trio até o último instante do trabalho.

Pontuado por instantes de maior calmaria e faixas turbulentas, Nó Sem Ponto II mostra o esforço da banda sergipana em se reinventar dentro de estúdio. São composições de essência urbana que discutem a relação entre os indivíduos e a cidade, a falta de comunicação entre os povos e a dificuldade em entender a pessoa à sua frente, conceito reforçado no texto de apresentação da obra. Um exercício criativo que naturalmente se distancia do uso da palavra, porém, estabelece na força dos instrumentos e profunda entrega de seus realizadores a base para a formação de pequenas histórias musicalmente detalhadas no interior de cada canção.