"The Slow Rush"

Ano: 2020
Selo: Modular / Interscope
Gênero: Rock Psicodélico, Synthpop, Pop Rock
Para quem gosta de: Pond, MGMT e Boogarins
Ouça: Lost In Yesterday e On Track
Nota: 8.0

Crítica | Tame Impala: “The Slow Rush”

O grande problema em em adotar uma estética ou sonoridade muito específica, como revisitar o rock dos anos 1970, é que cedo ou tarde você precisa se decidir entre preservar o aspecto referencial da própria obra ou se reinventar dentro de estúdio. Com o lançamento de Currents (2015), Kevin Parker claramente optou pela segunda opção. Parcialmente distante das guitarras e atmosfera densa que marca os antecessores Innerspeaker (2010) e Lonerism (2012), o cantor e compositor australiano fez do terceiro registro de inéditas do Tame Impala a passagem para o pop nostálgico dos anos 1980. Canções inspiradas pela obra de veteranos do período, como Michael Jackson (The Moment) e Prince (Love/Paranoia), porém, ainda da lisergia empoeirada que apresentou o grupo no início da década passada.

Em The Slow Rush (2020, Modular / Interscope), quarto e mais recente álbum de estúdio do Tame Impala, Parker segue de onde parou há cinco anos, porém, se permite avançar criativamente, revelando uma série de pistas sobre o futuro da banda. Do momento em que tem início, na base delirante de One More Year, passando pelo flerte com o pop, em Borderline, até alcançar as batidas de Gilmmer e Is It True, com suas guitarras e sintetizadores à la Daft Punk, evidente é o esforço do grupo em dialogar com uma parcela maior do público e mergulhar de vez nas pistas.

Claro que isso está longe de parecer uma surpresa para quem há tempos acompanha o trabalho da Tame Impala. Desde o último ano, quando Parker lançou a inédita Patience, canção que vai da balearic beat à neo-psicodelia do Primal Scream, que o desejo do grupo em provar de novas possibilidades se intensificou. São camadas instrumentais, ambientações eletrônicas e batidas que se revelam ao público em pequenas doses, sem pressa, cercando o ouvinte. Exemplo disso está na lenta construção de Breathe Deeper, canção que preserva o fascínio da banda pelo R&B, porém, encontra no uso destacado dos sintetizadores e temas cíclicos a passagem para um novo universo criativo.

Mesmo regido pelo evidente desejo de Parker em provar de fórmulas eletrônicas, não são poucos os momentos em The Slow Rush que o músico australiano preserva a força das guitarras detalhadas nos primeiros trabalhos de estúdio. É o caso de Instante Destiny, logo na abertura do álbum, e, principalmente, Posthumous Forgiveness, canção de essência nostálgica que se espalha em um intervalo de mais de seis minutos de duração. A principal diferença está no uso do instrumento como um suporte aos sintetizadores. São texturas e sobreposições sujas que reforçam uma inevitável sensação de familiaridade, estrutura que deve acertar em cheio aos antigos ouvintes da banda.

De fato, os momentos de maior acerto da obra estão justamente nesse ponto de equilíbrio entre passado e presente da banda. Perfeita representação desse resultado está em Lost In Yesterday, música regida pela força das batidas e sintetizadores coloridos, porém, completa pela uso estratégico das guitarras, lembrando o trabalho de Parker em músicas como Why Won’t They Talk to Me? e The Less I Know the Better. O mesmo refinamento criativo acaba se refletindo mais à frente, em It Might Be Time, canção que sintetiza a capacidade do músico australiano em dialogar com o pop, e On Track, faixa marcada pela força dos sentimentos e profunda entrega sentimental de seu realizador – “Problemas continuam caindo no meu colo, sim / Mas, estritamente falando, ainda estou no caminho certo / Então diga a todos que ficarei bem / Porque estritamente falando, eu tenho a minha vida inteira“.

Lançado sob grande expectativa, The Slow Rush talvez seja incapaz de causar o mesmo impacto dos registros que o antecedem, porém, está longe, muito longe, de parecer uma obra decepcionante. Pelo contrário, do momento em que tem início, em One More Year, até alcançar a derradeira One More Hour, não são poucos os momentos em que Parker brinda o ouvinte com uma seleção de músicas cuidadosamente bem delineadas em estúdio. Como indicado em Is It True, Lost In Yesterday e It Might Be Time, trata-se de uma obra regida pelas possibilidades. Instantes em que o músico australiano evidencia o desejo em trilhar novos caminhos, porém, mantém firme a consistência e força do presente disco.