"Delírios Líricos"

Ano: 2020
Selo: Voador Discos
Gênero: Rock, MPB, Pop Psicodélico
Para quem gosta de: Bárbara Eugênia e Juliano Gauche
Ouça: Trinta Anos Essa Noite e Alucinações
Nota: 8.6

Crítica | Tatá Aeroplano: “Delírios Líricos”

Sexto e mais recente álbum de Tatá Aeroplano em carreira solo, Delírios Líricos (2020, Voador Discos) é um trabalho que começa pela capa, na melancólica imagem de Luiz Romero. Acompanhado apenas de um cachorro, o músico paulistano posa em um ambiente consumido pela passagem do tempo. São restos de uma antiga construção, o sofá destruído, uma cadeira de balanço vazia e a vegetação rasteira que parece colorir parte desse cenário marcado por memórias de um passado ainda recente. Uma interpretação visual para o território poético que o artista desbrava de forma contemplativa até o último instante do disco, na delicada O Silêncio das Serpentes.

Uma vez imerso nessa atmosfera marcada pela força dos sentimentos e arranjos cuidadosamente trabalhados pelos parceiros Dustan Gallas, Junior Boca, Bruno Buarque e Lenis Rino, Aeroplano se divide entre criações recentes e faixas compostas há quase duas décadas. É o caso da comovente Trinta Anos Essa Noite. Escrita no início dos anos 2000, a canção se espalha em meio a versos embriagados, medos e momentos de doce conformismo, como se o músico paulistano se entregasse à própria solidão. “Eu sigo o meu caminho / Pra sempre sempre ser sozinho“, canta. São versos intimistas que se espalham em uma trama de guitarras empoeiradas, evocando Roberto Carlos em obras como O Inimitável (1968).

O mesmo lirismo triste acaba se refletindo na agridoce Amoras Na Beira do Rio. São pouco mais de seis minutos em que Aeroplano flutua em meio a versos descritivos e memórias consumidas pela saudade, como uma extensão do romantismo triste que marca os primeiros trabalhos em carreira solo, como Na Loucura & Na Lucidez (2014). “Do tempo que eu parei de beber / Fiquei limpo por mais de um mês / Na noite que recai / Finalmente eu te conheci / Você me levou pra sua rua / Me contou sua vida“, relembra. Instantes em que o músico paulistano faz das próprias vivências um elemento de diálogo com o ouvinte, conceito que tem sido aprimorado desde o trabalho como integrante do Cérebro Eletrônico.

Claro que nem tudo gira em torno das desilusões amorosas vividas por Aeroplano. Exemplo disso está na introdutória Alucinações, faixa em que pinta um curioso retrato sobre a situação política do Brasil, discute a relação tumultuada entre os indivíduos e convida o ouvinte a se perder em um território de emoções conflitantes. “Nesse cinto que me aperta e me engole / Fico esperto e vejo as massas que escorrem / Pra morrer em nome de deus“, canta enquanto as vozes complementares de Bárbara Eugênia, com quem gravou o delicado Vida Ventureira (2017), e Malu Maria completam: “Nos pratos / Nas prateleiras / O veneno escorre“.

Mais à frente, em Cabeças Cortadas, o mesmo lirismo delirante. São versos psicodélicos que ganham forma em uma estrutura crescente, como uma espiral de melodias e vozes que conduzem o ouvinte até a derradeira O Silêncio das Serpentes, faixa de essência teatral em que Aeroplano faz do minucioso jogo de palavras um complemento aos arranjos. Mesmo Ressurreições, música originalmente composta por Jorge Mautner e Nelson Jacobina, assume novo enquadramento dentro do disco, rompendo com a morosidade do álbum em uma estrutura enérgica, por vezes íntima do material apresentado pelo artista em Deus e o Diabo no Liquidificador (2010).

Contraponto aos exageros que marcam o antecessor Alma de Gato (2018), Delírios Líricos cresce como uma obra de essência equilibrada, como se o músico paulistano e seus parceiros de banda alternassem entre momentos grandiosos e faixas deliciosamente contidas. São arranjos atmosféricos e melodias cósmicas que servem de complemento aos versos intimistas do cantor, conceito reforçado com naturalidade em músicas como Réquiem Para Um Sonho e na já citada Cabeças Cortadas. Canções que parecem dançar pelo tempo, sem pressa, costurando passado e presente das experiências acumuladas por Aeroplano, riqueza que se reflete do primeiro ao último instante da obra.