"Notes on a Conditional Form"

Ano: 2020
Selo: Dirty Hit / Polydor
Gênero: Pop Rock, Electropop, Rock
Para quem gosta de: Phoenix e The Japanese House
Ouça: If You're Too Shy e Jesus Christ 2005
Nota: 7.5

Crítica | The 1975: “Notes on a Conditional Form”

Em mãos inexperientes, Notes on a Conditional Form (2020, Dirty Hit / Polydor) é um trabalho que poderia ter dado muito errado. Quarto álbum de estúdio do grupo britânico The 1975, o sucessor do elogiado A Brief Inquiry Into Online Relationships (2018), estabelece na criativa colagem de ritmos a base para grande parte das faixas. Composições que atravessam o pop dos anos 1980, flertam com a produção eletrônica da década de 2000, detalham romances fracassados e ainda evidenciam o forte discurso político do quarteto. “Uma noite pelo Reino Unido. Em carros, fumando maconha, [ouvindo] Burial no McDonalds, [pela rodovia] M 62 e Manchester“, respondeu o vocalista Matthew Healy em entrevista ao The New York Times, sintetizado parte da temática que orienta a formação da obra.

É partindo dessa colorida sobreposição de ideias que o grupo, completo pela presença dos músicos Adam Hann, Ross MacDonald e George Daniel, orienta a experiência do ouvinte até a derradeira Guys. Composições que se espalham sem ordem aparente em um intervalo de mais de 80 minutos de duração, proposta que deve agradar com naturalidade ao público fiel da banda, mas que talvez dificulte a passagem para novos ouvintes. Um misto de passado e presente, delírio e sobriedade, como se o quarteto britânico testasse os próprios limites dentro de estúdio.

Exemplo disso está na própria sequência de abertura do disco. São pouco mais de dez minutos em que o grupo parte de um pop atmosférico, como na introdutória canção que evoca U2 no discurso ecológico de Greta Thunberg, passa pela urgência punk de People e segue em meio a ambientações cósmicas de The End (Music for Cars), faixa que parece resgatada de algum trabalho de Brian Eno. Mesmo os temas explorados dentro de cada composição apontam para direções completamente opostas, como uma fuga da homogeneidade que embala o álbum anterior, centrado nas relações humanas e nas experiências geradas pela internet e redes sociais.

Entretanto, é justamente a capacidade da banda em investir em grandes composições, vide preciosidades como Sincerity Is Scary e Love It If We Made It, no álbum anterior, que possibilitam ao grupo a chance de transitar por entre diferentes gêneros de forma sempre convincente. Instantes em que o quarteto vai do pop ensolarado de If You’re Too Shy (Let Me Know), com suas guitarras e versos pegajosos, às batidas eletrônicas de Frail State of Mind, música que faz lembrar os encontros entre Ben Gibbard e Jimmy Tamborello em Give Up (2003), grande obra do The Postal Service. Mesmo a curtinha Roadkill, com seus pianos e guitarras nostálgicas, reflete o esmero dos músicos na composição de cada elemento.

Claro que nada disso justifica o excesso de músicas que partem de uma mesma base temática. É o caso de I Think There’s Something You Should Know e Shiny Collarbone, faixas que repetem uma série de elementos previamente testados em Frail State of Mind. Mesmo o uso de interlúdios e ambientações climáticas, conceito reforçado na segunda metade do disco, tornam a experiência do ouvinte arrastada, vide a atmosférica Having No Head, canção que mais parece uma sobra do disco anterior. Pequenos exageros que acabam soterrando preciosidades como a acústica Jesus Christ 2005 God Bless America, bem-sucedida colaboração com a cantora e compositora norte-americana Phoebe Bridgers.

Feito para ser revisitado, Notes on a Conditional Form concentra no vasto número de faixas o diálogo com diferentes colaboradores e artistas vindos de diferentes campos da música. É o caso de FKA Twigs, dona de parte das vozes em If You’re Too Shy (Let Me Know) e What Should I Say, o jamaicano Cutty Ranks, em Shiny Collarbone, e até o ator Tim Healy, pai do vocalista da banda, em Don’t Worry. Um espaço aberto à colaboração onde tudo e nada pode acontecer ao mesmo tempo, proposta que naturalmente tende ao excesso, mas que em nenhum momento deixa de surpreender o ouvinte pela capacidade do grupo em revelar criações tão diversas, porém, dentro de um mesmo universo criativo.