"We Will Always Love You"

Ano: 2020
Selo: Modular
Gênero: Eletrônica, Soul, Pop Psicodélico
Para quem gosta de: Caribou, Gorillaz e Daft Punk
Ouça: We Will Always Love You, Interstellar Love
Nota: 8.0

Crítica | The Avalanches: “We Will Always Love You”

Se você olhar para o céu durante à noite, é provável que grande parte das estrelas que iluminam o firmamento há muito deixaram de existir. São fragmentos momentâneos de corpos celestes que viajaram pelo tempo e espaço até que pudessem ser apreciados aqui da Terra, como olhar para o passado sem deixar o presente. É partindo justamente dessa abordagem melancólica, porém, substituindo o cosmos pela constelação de artistas que partiram há bastante tempo, que os músicos Robbie Chater e Tony Di Blasi apresentam ao público o terceiro e mais recente álbum de estúdio do grupo australiano The Avalanches, We Will Always Love You (2020, Modular).

Quando utilizamos fragmentos de músicas muito, mas muito antigas, o cantor já pode ter morrido há bastante tempo, então é como se invocássemos espíritos“, comentou Chater, em entrevista à BBC. De fato, são essas retalhos fantasmagóricos, memórias e canções empoeiradas que servem de sustento ao disco. Conhecida pelo minucioso processo de composição, vide os mais de 900 samples utilizados no introdutório Since I Left You (2000), a banda mais uma vez se debruça no encaixe de cada elemento da obra. São músicas concebidas a partir de trechos resgatados de antigos compactos de vinil e outras raridades, proposta que vai do soul/funk produzido nos anos 1960 à psicodelia da década de 1970 de forma sempre detalhista, mágica.

Não por acaso, o grupo fez da própria faixa-título a canção escolhida para apresentar o álbum. Concebida a partir de trechos de I’ll Take You Anywhere That You Come, de Smokey Robinson, e Hammond Song, do trio The Roches, a música, completa pela presença de Blood Orange, parece dançar pelo tempo de forma tão referencial quanto inventiva e autoral. Instantes em que somos convidados a mergulhar em discussões sobre vida após a morte, relacionamentos além do tempo, saudade e perdão de forma sempre sensível, estrutura que utiliza da relação entre a escritora Ann Druyan, homenageada no espectrograma da imagem de capa, e o astrônomo Carl Sagan como pano de fundo conceitual durante toda a execução da obra.

Uma vez imerso nesse cenário, o ouvinte é constantemente surpreendido pela presença de colaboradores vindos dos mais variados campos da música. São nomes como Rivers Cuomo (Weezer), Tricky, Karen O (Yeah Yeah Yeahs) e Kurt Vile que, vez ou outra, assumem a função antes destinada exclusivamente ao uso de samples. Exemplo disso acontece em Wherever You Go. Completa pela participação de Jamie xx, Neneh Cherry e CLYPSO, a faixa vai de trechos de programas de TV ao uso de melodias cósmicas que se espalham em meio a batidas cuidadosamente encaixadas pela dupla. Pouco menos de seis minutos em que a banda australiana preserva a essência psicodélica do álbum disco anterior, Wildflower (2016), porém, utilizando de um novo direcionamento estético.

São canções que partem de uma base essencialmente contida, por vezes econômica, porém, completa pela criativa sobreposição de ritmos, melodias e vozes trabalhadas em uma arquitetura sempre crescente. O resultado desse processo está na entrega de músicas como Interstellar Love, parceria com Leon Bridges, e The Divine Chord, ao lado de MGMT e Johnny Marr, em que o grupo parece jogar com as possibilidades dentro de estúdio. Composições que resgatam diferentes aspectos dos antigos registros da banda, como as vozes submersas e instrumentais, porém, adaptadas ao conceito e identidade de cada convidado, como na delirante Music Is the Light, bem-sucedido encontro com Cornelius e Kelly Moran.

Claro que esse permanente diálogo com diferentes colaboradores não interfere na produção de faixas assumidas isoladamente pelos membros da banda. Da doce psicodelia que se apodera de Overcome, passando pelas batidas e temas dançantes de Music Makes Me High, música que evoca os momentos de maior euforia em Since I Left You, cada composição do disco reflete o completo domínio e minúcia de Chater e Blasi durante toda a execução da obra. Um precioso cruzamento de informações que aponta para os álbuns anteriores, porém, estabelece na fina base conceitual e temas discutidos dentro de cada canção um importante alicerce criativo.