"The Big Day"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: Kanye West, Tyler, The Creator e Kid Cudi
Ouça: The Big Day e Do You Remember
Nota: 6.0

Crítica | “The Big Day”, Chance The Rapper

Uma boa ideia, quando não executada de maneira correta, rapidamente se transforma em um problema. E é exatamente isso que Chance The Rapper, enfrenta no primeiro álbum de estúdio da carreira, The Big Day (2019, Independente). Sequência aos elogiados Acid Rap (2013) e Coloring Book (2016), o trabalho de quase 80 minutos de duração convida o ouvinte a mergulhar em uma cerimônia de casamento pontuada por momentos de doce e cômica reflexão sobre a vida conjugal. Um extenso exercício criativo que encanta pela forma como o artista transforma elementos da própria união com a modelo Kirsten Corley em música, porém, tropeça em pequenos excessos e ideias que acabam se repetindo.

Concebido em um intervalo de mais de um ano, The Big Day é, como parte expressiva dos versos apontam, um registro sobre as experiências pessoais e relações familiares que envolvem o cotidiano do rapper. Não por acaso, Chance decidiu convidar o próprio pai, Ken Bennett, a assumir parte da letra em Eternal, e dividir as rimas com o irmão, Taylor Bannet, na colaborativa Roo, composição que se completa pela presença das irmãs Bianca e Sierra Cassidy, do CocoRosie. Mesmo o time de instrumentistas e produtores que acompanham o rapper ao longo da obra, como Nico Segal, há tempos interferem criativamente no trabalho do artista.

Partindo desse conceito familiar e acolhedor, Chance entrega ao público uma obra que dialoga de forma quase imediata com o ouvinte. Composições como a nostálgica Do You Remember, encontro com Ben Gibbard (Death Cab For Cutie) em que explora a beleza nas coisas simples da vida — “Você lembra de quando era mais jovem / Os verões duravam para sempre? / Dias desaparecem em meses, em anos / Mantenha essa sensação para sempre“. A própria faixa-título do disco, colaboração com Francis and the Lights, surpreender pela forma o rapper explora os próprios sentimentos de forma exageradamente romântica, celebrando essa nova fase da vida — “Eu não posso acreditar / Deve ser o cara vivo mais sortudo“.

O problema é que para cada faixa significativa que embala o disco, Chance revela duas ou mais composições ancoradas em conceitos bastante similares, tornando a experiência de ouvir o trabalho exaustiva. Do momento em que tem início, em All Day Long, colaboração com John Legend que lembra as canções de Kanye West, em Late Registration (2005) e Champion (2007), fica evidente o quanto o artista parece perdido em meio a versos cíclicos, temas e conceitos que pouco avançam criativamente. É como se o rapper sufocasse pela euforia dos sentimentos, perdendo o controle da própria obra.

Mesmo a base instrumental e rítmica do disco utiliza de um limitado conjunto de ideias, tornando a experiência do público cada vez mais arrastada. Exemplo disso está em 5 Year Plan, colaboração com Randy Newman, e Slide Around, encontro com Nicki Minaj e Lil Durk, em que o rapper parte de uma mesma estrutura melódica, jogando apenas com a variação das batidas. Falta separação e maior distanciamento entre as faixas, conceito aprimorado pelo artista durante o lançamento de Coloring Book. A própria inserção de esquetes cômicas, talvez pensadas como um respiro para o trabalho, acaba se perdendo frente ao número exagerado de faixas e forte homogeneidade do álbum.

Naturalmente consumido pelos excessos, The Big Day parece muito mais uma tentativa de Chance The Rapper em eternizar um momento vivido por ele próprio do que garantir ao público uma obra coesa. Claro que esse propositado descontrole em nenhum momento faz do presente álbum um fracasso completo. Pelo contrário, bons momentos são percebidos durante toda a execução do trabalho. Do lirismo cômico que embala a divertida Hot Shower, passando pela completa devoção romântica de We Go High, fica evidente o cuidado do artista em parte expressiva do registro. Um limitado conjunto de acertos que se perde em meio a excessos cometidos pelo próprio realizador.

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