"Mercy"

Ano: 2020
Selo: Sacred Bones Records
Gênero: Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: The War On Drugs e Iceage
Ouça: Wading in Dirty Water e Breeze
Nota: 7.5

Crítica | The Men: “Mercy”

É difícil acreditar que o mesmo The Men que estreou há dez anos com o barulhento Immaculada (2010) seja o responsável pelo recente Mercy (2020, Sacred Bones Records). Longe do som ruidoso que marca os primeiros trabalhos de estúdio, como Leave Home (2011) e Open Your Heart (2012), sobrevive na obra do grupo nova-iorquino — hoje formado por Mark Perro (voz, guitarra, sintetizador), Nick Chiericozzi (voz, guitarra), Rich Samis (bateria) e Kevin Faulkner (baixo) —, a passagem para um som revisionista, como um olhar curioso para a produção norte-americana dos anos 1970 e 1980.

Em um lento processo de transformação que teve início durante o lançamento de Tomorrow’s Hits (2014), cada novo registro de inéditas entregue pelo grupo estadunidense encontra na obra de veteranos como The Velvet Underground a passagem para um novo universo criativo. Canções que vão da completa lisergia ao parcial experimento, estrutura que ganha ainda mais destaque em cada uma das sete faixas que embalam o primeiro trabalho de estúdio do grupo desde o soturno Drift (2018), obra ancorada em elementos do pós-punk.

Cleber Facchiadmin

Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade na extensa Wading in Dirty Water. São pouco mais de dez minutos em que o quarteto nova-iorquino costura diferentes décadas de tendências e experiências pessoais dentro de uma única canção. Do uso dos teclados, emulando a boa fase do The Doors, passando pela versatilidade das guitarras, íntimas de veteranos da década de 1980, cada fragmento da canção reflete a capacidade da banda em transitar por diferentes territórios conceituais, porém, preservando a própria identidade criativa.

O mesmo resultado acaba se refletindo mais à frente, em Children All Over the World, música que soa como um encontro entre Tom Petty e Van Hallen, efeito direto do uso quase caricatural dos sintetizadores e guitarras. São camadas instrumentais e vozes que se revelam ao público em pequenas doses, sem pressa, estrutura que naturalmente faz lembrar de nomes como The War On Drugs, Kurt Vile e demais artistas inspirados pelo rock produzido há mais de quatro décadas. Nada que prejudique a capacidade do grupo nova-iorquino em mergulhar na composição de músicas como a urgente Breeze.

Propositada fuga do restante da obra, a canção preserva o direcionamento nostálgico que embala o restante do disco, porém, aporta em novos territórios criativos. Difícil não lembrar de nomes como The Soft Boys e Buzzcocks, essa última, uma das principais referências da banda. São guitarras e batidas rápidas, como uma fina desconstrução do minimalismo atmosférico que toma conta de músicas como Fallin’ Thru e a derradeira faixa-título, composição que reflete a capacidade do quarteto em dialogar com uma parcela maior do público.

Curioso, como tudo aquilo que os integrantes do The Men tem produzido desde o início da carreira, Mercy transita por entre gêneros e temas de forma sempre particular, como se cada composição refletisse o interesse de seus integrantes por um conceito específico. O mais interessante talvez seja perceber que mesmo diverso musicalmente, o trabalho em nenhum momento perde a consistência e forte aproximação entre as faixas. Canções que partem sempre de um mesmo ponto referencial, proposta que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra.