"Microphones In 2020"

Ano: 2020
Selo: P.W. Elverum & Sun
Gênero: Indie, Lo-Fi, Folk Rock
Para quem gosta de: Mount Eerie e Sun Kil Moon
Ouça: Microphones in 2020
Nota: 8.6

Crítica | The Microphones: “Microphones In 2020”

Não existe fim“.

O verso repetido em diversos momentos de Microphones In 2020 (2020, P.W. Elverum & Sun), novo de Phil Elverum, diz muito sobre o aspecto cíclico e contínua produção do cantor e compositor original de Olympia, Washington. Primeiro disco de inéditas do músico sob o título de The Microphones em 17 anos, o trabalho de essência autobiográfica costura passado e presente de forma sempre descritiva, crua. São letras detalhistas que atravessam a infância e adolescência, revelam aspectos importantes que levaram o artista a se aprofundar na carreira musical, porém, estabelecem no contraponto amargo e realista da vida adulta um importante componente criativo para a formação de cada elemento.

A própria imagem de capa do registro, com Elverum dividido pelo próprio reflexo, funciona como um indicativo claro desses pequenos contrastes e diferentes fragmentos temporais que movem o álbum. Instantes em que o músico norte-americano relembra as primeiras impressões ouvindo artistas como Tori Amos, Red House Painters e Sonic Youth, passa pela morte de Kurt Cobain, quando tinha apenas 17 anos, estabelece pequenos diálogos com o cultuado The Glow Pt. 2 (2001), grande obra do The Microphones, e retorna ao presente cenário, indicando os motivos que o levaram a produzir esse novo disco. Um turbilhão sentimental e poético que conduz a experiência do ouvinte até o último instante do trabalho.

Não por acaso, Elverum decidiu organizar todo esse vasto repertório em “uma música longa gravada em lugar nenhum“. São 44 minutos e 44 segundos em que o ouvinte é convidado a se perder em um território onde passado e presente se confundem a todo instante. É como dar início a uma extensa narrativa cinematográfica, conceito reforçado pelo vídeo que acompanha o material de divulgação do disco, publicado no YouTube. São fotografias que passeiam por diferentes aspectos da vida do artista, detalham momentos ao lado da esposa e antiga parceira de banda, Geneviève Castrée (1981-2016), além de outros aspectos importantes que definem a trajetória do cantor.



Claro que isso está longe de parecer uma surpresa dentro da extensa discografia do músico norte-americano. Exemplo disso está em toda a série de obras apresentadas pelo título de Mount Eerie nos últimos anos, caso do doloroso A Crow Looked At Me (2017), álbum em que narra de forma descritiva os acontecimentos após a morte de Castrée, vítima de um câncer inoperável no pâncreas. Mesmo Now Only (2018), entregue no ano seguinte, reflete uma estrutura bastante similar. Canções que partem de um intenso fluxo de pensamento, como fragmentos narrados ao público. “De qualquer forma, todas as músicas que cantei são sobre a mesma coisa: com os pés no chão, olhando ao redor“, confessa nos minutos finais do presente disco.

A principal diferença em relação aos antigos trabalhos do cantor, e isso inclui os primeiros registros do The Microphones, está no maior comprometimento estético que define a formação do álbum. Concebido em um intervalo de vários meses, Microphones In 2020 parte da propositada repetição dos elementos, sufocando o ouvinte dentro de um mesmo espaço temático. Ao longo da obra, pequenos acréscimos e inserções minuciosas, estrutura que vai do uso cada vez mais destacado da bateria, inexistente nos minutos iniciais, passa pela sobreposição das guitarras e encontra em incontáveis camadas de ruídos um precioso componente de caos. “Demorou quase um ano para escrever e gravar, trabalhando constantemente em casa, vasculhando os arquivos, tocando os mesmos dois acordes na mesma guitarra de U$ 5“, escreveu no texto de apresentação do disco.

Consumido pela força dos sentimentos, memórias e experiências vividas pelo artista em quase três décadas de carreira, Microphones In 2020 nasce como um ponto de equilíbrio entre os primeiros registros autorais e tudo aquilo que o músico estadunidense tem produzido na última década. São fragmentos poéticos que se conectam como pequenas pontes conceituais aos principais registros assinados pelo músico. Entretanto, para além de um exercício puramente nostálgico e estético, Elverum garante ao público uma obra de essência documental, confessando ao público diferentes aspectos da própria vida nunca antes revelados. Um permanente olhar para o passado, mas com os dois pés ainda presos ao presente.