"The Practice of Love"

Ano: 2019
Selo: Sacred Bones Records
Gênero: Art Pop, Eletrônica, Experimental
Para quem gosta de: Julia Holter e Cate Le Bon
Ouça: High Alice, Ashes to Ashes e Accident
Nota: 8.5

Crítica | “The Practice of Love”, Jenny Hval

Poucos artistas têm se dedicado a entender e explorar a alma feminina com tamanho afinco quanto Jenny Hval. Prova disso está em toda a sequência de obras apresentadas pela cantora e compositora norueguesa nos últimos anos. Da libertação sexual que embala os versos em Innocence Is Kinky (2013) e Apocalypse, girl (2015), passando pelo estudo do próprio corpo, vampirismo e menstruação, nos provocativos Viscera (2011) e Blood Bitch (2016), cada novo registro de inéditas entregue pela musicista revela ao público um mundo de novas possibilidades, porém, dentro de uma mesma base temática, proposta que alcança novo resultado nas canções do sétimo e mais recente trabalho de estúdio da artista, The Practice of Love (2019, Sacred Bones Records).

Sequência ao atmosférico e ainda recente The Long Sleep EP (2018), registro em que passeia pelo campo dos sonhos de maneira sensível, o novo álbum preserva a essência melódica detalhada por Hval há poucos meses, porém, em uma estrutura ainda mais acessível, efeito direto da tentativa da artista em dialogar com a produção eletrônica dos anos 1990. Declaradamente influenciada pela obra de Kylie Minogue e demais representantes do período, a cantora utiliza dessa “clareza no som” para revelar ao público um disco “leve”, como respondeu em entrevista. Uma fuga do material “denso e profundo” dos antigos trabalhos, mas que em nenhum momento corrompe o lirismo minucioso que há tempos orienta a produção da musicista.

E isso se reflete logo nos primeiros minutos do disco, em Lions. “Estude o solo, o solo marrom poroso / Espalhado por todos os lugares / Sua suavidade, os cogumelos / Estou florescendo / E as estranhas flores azuis que crescem perto deles / Estude isso e pergunte-se: ‘onde está Deus?’“, canta em meio a metáforas que tratam da alma e do corpo feminino como um organismo vivo, um planeta em permanente processo de transformação. São versos existencialistas, por vezes mágicos, como uma extensão do mesmo universo temático detalhado por Hval em seu último romance, Girls Against God, mas que reflete com naturalidade algumas das principais referências criativas da artista, caso da escritora Clarice Lispector (1920 – 1977) e o clássico A Hora da Estrela (1977).

Síntese dessa profunda relação de Hval com a literatura ecoa com naturalidade em High Alice, segunda faixa do disco. Trata-se de uma interpretação particular e deliciosamente erótica de Alice no País das Maravilhas (1865). Instantes em que a cantora utiliza da obra de Lewis Carrell como uma descoberta para o prazer feminino. O mesmo refinamento poético se faz evidente no encontro com Laura Jean Englert e Vivian Wang, na faixa-título do disco. São elocubrações existencialistas em que discute a essência feminina em uma sociedade patriarcal, aborto e a constante sensação de deslocamento dos indivíduos. “Eu tenho que aceitar que faço parte desse ecossistema humano, mas eu não sou a princesa e sou não é o personagem principal“, pontua.

Interessante notar que mesmo pontuado por reflexões densas, The Practice of Love em nenhum momento soa como uma obra inacessível, pelo contrário, poucas vezes antes um trabalho produzido por Hval pareceu tão íntimo do público. E isso se reflete na forma como a cantora utiliza da própria voz e ambientações detalhistas na crescente Ashes to Ashes. São pouco mais de quatro minutos em que a artista parece replicar a atmosfera detalhada em The Long Sleep, porém, dialogando com os temas dançantes de Björk, no introdutório Debut (1993), ou mesmo Madonna, em Ray of Light (1998). Fragmentos de vozes, batidas e sintetizadores inebriantes, estímulo para a formação de músicas como Accident e Six Red Cannas.

Produto das inquietações, referências e experiências particulares compartilhadas por Hval, The Practice of Love talvez seja o trabalho em que a cantora e compositora norueguesa mais se entrega sentimentalmente, estreitando de maneira evidente a relação com o próprio público. É como se do material consolidado há três anos, durante o lançamento de Blood Bitch, a artista fosse além, utilizando da musicalidade menos hermética o estímulo para um material ainda mais provocativo, forte, refinamento que se reflete na produção de músicas como High Alice, Ashes to Ashes, Accident e todo o fino repertório que conduz a experiência do ouvinte até o último instante da obra.