"The Quanta Series"

Ano: 2019
Selo: K Á R Y Y N / Antevasin
Gênero: Experimental, Art Pop
Para quem gosta de: Björk e Jenny Hval
Ouça: Aleppo, Ever e Yajna
Nota: 7.8

Crítica | “The Quanta Series”, Káryyn

The Quanta Series (2019, K Á R Y Y N / Antevasin) é um trabalho curioso. Se por um lado os versos lançados pela cantora e compositora sírio-americana resgatam memórias da infância e instantes de forte comoção relacionados à guerra no Oriente Médio, em se tratando dos arranjos e temas instrumentais detalhados pela artista, todos os elementos se articulam de forma a revelar uma obra futurística. Instantes de profunda renovação estética e delírio, como se cada composição do disco servisse de passagem para um novo universo criativo.

Concebido em um intervalo de poucos meses, com Káryyn revelando ao público pequenos blocos de composições, The Quanta Series, assim como toda a sequência de músicas anteriormente apresentadas pela artista, exige tempo até se revelar por completo. São camadas de vozes, texturas eletrônicas e ruídos atmosféricos que avançam lentamente, transportando o ouvinte para dentro de um território marcado pela incerteza dos elementos.

Síntese dessa lenta composição dos arranjos ecoa com naturalidade logo na segunda faixa do disco, Yajna. Inicialmente montada a partir de ruídos abstratos e fragmentos eletrônicos, sonoridade que muito se assemelha ao trabalho de artistas como Arca e Holly Herndon, a canção aos poucos se permite provar de batidas e melodias fortes, apontando para o pop atmosférico de nomes como Björk e, em menor escala, Bat For Lashes, efeito causado pelo uso destacado da voz.

Escolhida para a abertura do disco, Ever é outra que encanta pela forma como Káryyn parece brincar com a sobreposição dos elementos. Enquanto nos minutos iniciais a canção aponta para o mesmo experimentalismo eletrônico de Oneohtrix Point Never, um avanço rápido pela canção aproxima o trabalho da artista do mesmo R&B futurístico de Kelela e FKA Twigs, conceito sutilmente pervertido pela forma como a cantora incorpora o uso da voz, apontando para um universo de emanações etéreas.

O mais interessante talvez seja perceber a forma como Káryyn flerta com a música pop sem necessariamente perder a essência provocativa do restante da obra. Exemplo disso está em Aleppo. Uma das principais composições do disco a serem apresentadas ao público, a faixa preserva o caráter inventivo que vem sendo detalhado desde a música de abertura do álbum, porém, se permitindo provar de fórmulas instrumentais, melodias e vozes que parecem pensadas para hipnotizar o ouvinte.

No restante da obra, um espaço delicadamente aberto ao experimento. São variações instrumentais que passeiam por diferentes campos da música de vanguarda, sem pressa, como se The Quanta Series fosse concebido a partir de pequenas variações estéticas e musicais que sintetizam a rica herança musical de Káryyn. Um labirinto de fórmulas inexatas e corrupções sensoriais que mudam de direção a todo instante, proposta que torna a experiência do ouvinte sempre curiosa.