"KD VCS"

Ano: 2020
Selo: YB Music
Gênero: Experimental, Jazz, MPB
Para quem gosta de: Quartabê e Metá Metá
Ouça: Tarrasque e Pescoço Curto
Nota: 8.0

Crítica | Thiago França: “KD VCS”

Thiago França é um desses personagens onipresentes da música brasileira. Seja como integrante do Metá Metá, com quem trabalhou na composição de alguns dos registros mais influentes da última década, ou nos encontros com Rodrigo Ogi, Gui Amabis e Don L, sobram momentos em que o saxofonista aparece cercado por diferentes colaboradores, ampliando os limites da própria obra. Talvez por isso seja tão desconfortável mergulhar nas canções de KD VCS (2020, YB Music). Longe dos habituais parceiros de estúdio, o músico mineiro encontra no próprio isolamento a passagem para um de seus registros mais desafiadores. Instantes de delicado improviso que se completam pelo uso de ambientações quase silenciosas, indicativo de novo direcionamento estético adotado pelo artista.

Não por acaso, França inaugura o disco com a atmosférica Aguiã, Alufã. São pouco mais de cinco minuto em que o artista segue em uma medida própria de tempo, baforando notas ruidosas que se completam pelo uso da percussão cintilante, como sinos de vento balançando em uma janela. São camadas instrumentais que surgem e desaparecem sem ordem aparente, como um lento desvendar de ideias e possibilidades criativas. Frações econômicas que apontam a direção seguida individualmente pelo músico até o encerramento do trabalho.

De fato, é difícil não visualizar a imagem do saxofonista em um quarto à meia luz, sempre solitário. Composições marcadas pelo minimalismo dos elementos, como se França registrasse cada nota em uma partitura imaginária. Exemplo disso está em Ngoloxi, música que alterna entre instantes de breve silenciamento e melodias complexas, como uma criação viva, maior a cada novo movimento. A mesma estrutura crescente acaba se refletindo na faixa seguinte, Dongô, canção que parte de uma base econômica, porém, mergulha em uma trama quase labiríntica, como se extraída de um filme noir dos anos 1950.

Claro que esse propositado recolhimento não interfere na composição de faixas marcadas pela turbulência dos elementos. É o caso da curtinha Pescoço Curto. Em um intervalo de apenas dois minutos, França preserva a essência minimalista do restante da obra, porém, encontra na pressão das chaves o estímulo para uma base percussiva, como um complemento às notas sopradas pelo saxofone. São variações instrumentais que ganham mais destaque à medida em que a faixa avança, lembrando uma versão simplificada do material entregue pelo próprio artista nas canções do paralelo Sambanzo.

Nada que se compare ao material entregue na música seguinte, Tarrasque. Densa e lenta, fazendo valer o título da criatura fantástica que da nome à faixa, a canção ganha forma em meio a camadas quase intransponíveis de ruídos, cercando e sufocando o ouvinte. São sobreposições delirantes que fazem lembrar do trabalho de Colin Stetson, em New History Warfare Vol. 2: Judges (2011), efeito da forte similaridade com a obra do saxofonista norte-americano. É somente com a chegada de Mercuria, minutos mais tarde, que a atmosfera do álbum muda. Um sopro melancólico, limpo, como um diálogo de França com alguns dos trabalhos mais acessíveis de John Coltrane, vide o encontro com Duke Ellington, em In a Sentimental Mood.

Com Dentro da Pedra como faixa de encerramento do disco, o trabalho que conta com gravação, mixagem e masterização de Daniel Bozzio, mostra o esforço do saxofonista mineiro em avançar criativamente. São melodias sobrepostas que se espalham de forma propositadamente incerta, torta, reforçando a pressão dos dedos e uso de ruídos momentâneos que escorrem por entre as brechas da canção. Um misto de sequência e fina desconstrução de tudo aquilo que França apresenta desde as primeiras notas da introdutória Aguiã, Alufã.