"Mente"

Ano: 2020
Selo: Gearbox Records
Gênero: Experimental, Rock, MPB
Para quem gosta de: Negro Leo e Ana Frango Elétrico
Ouça: Soar Estranho e Voz Única Foto Sem Calcinha
Nota: 8.5

Crítica | Thiago Nassif: “Mente”

Você pode passar horas debruçado sobre as criações de Thiago Nassif e, ainda assim, ser surpreendido em uma das inúmeras esquinas de Mente (2020, Gearbox Records). De essência multidisciplinar, como tudo aquilo que o cantor, compositor e multi-instrumentista residente no Rio de Janeiro tem produzido desde os inaugurais Práxis (2011) e Três (2016), o trabalho que conta com co-produção do experimentalista Arto Lindsay (Caetano Veloso, Marisa Monte) alcança um ponto de equilíbrio entre os delírios autorais e algumas das principais inspirações do músico. Frações poéticas e instrumentais que partem de uma arquitetura esquelética, porém, sutilmente revelam nervos, músculos, pele e forma dentro de uma atmosfera deliciosamente inexata.

Você tem me feito soar estranho“, repete Nassif, como um mantra sujo, na introdutória Soar Estranho. Escolhida para para apresentar o disco, a canção de quase cinco minutos ganha forma em um labirinto de sons, vozes, batidas e quebras rítmicas que jogam com a percepção do ouvinte durante toda sua montagem. São ecos de Prince, no desenho torto das guitarras, ambientações acinzentadas, íntimas da no wave de Lindsay, e momentos de parcial conforto, como se mesmo no cenário caótico que embala a experiência do público, o músico criasse pequenos refúgios conceituais. Um misto de acolhimento e constante provocação.

São justamente essas quebras e incontáveis desníveis espalhados durante toda a execução do trabalho que tornam a experiência de ouvir o disco tão satisfatória. “O que eu canto é sobre o dedo tentando furar o plástico“, anuncia em Plástico, música em que faz da permanente tensão entre os elementos um importante componente criativo. É como se nada terminasse exatamente do jeito que começou, estrutura que se reflete não apenas na lenta desconstrução dos ritmos e formas instrumentais ao longo da obra, mas no uso das vozes, ruídos e cada mínimo fragmento que brota por entre as brechas de Mente. Ideias que se projetam em um condensado disforme que vai do samba à música eletrônica, do jazz ao pop de maneira sempre irregular.

Parte desse resultado veio da forma como o próprio trabalho foi concebido e montado. Foram quase quatro anos de experimentações, encontros com diferentes artistas e sobreposições estéticas, direcionamento que embala a experiência do público até a derradeira Santa. “Comecei o disco criando loops de guitarra e passei a estruturar como se fosse arquitetura mesmo. Estruturei a partir de repetições e fui criando batidas eletrônicas em cima, colocando o instrumental e depois trouxe os músicos“, respondeu em entrevista ao Uol, explicando parte do processo de composição da obra. São pinceladas instrumentais quase imperceptíveis, porém, necessárias para o fortalecimento da obra, proposta que naturalmente força uma audição atenta por parte do ouvinte, convidado a descobrir todos esses detalhes.

Mesmo a escolha de cada colaborador ao longo da obra parece contribuir para esse resultado. São nomes como o pianista Vitor Araújo e o músico Jonas Sá, no jogo de palavras que envolve a crescente Rijo Jorra Já, Ana Frango Elétrico, na anti-bossa de Voz Única Foto Sem Calcinha, o amazonense Vinicius Cantuária, em Pele de Leopardo, e o próprio Lindsay, nas guitarras de Soar Estranho e Feral Fox. Surgem ainda outros personagens importantes da cena carioca, como o prolífico Ricardo Dias Gomes, Pedro Sá, Negro Leo e Bruno Di Lullo. Um sempre mutável time de colaboradores, como se cada composição fosse um objeto a ser analisado individualmente, isolando todas as nuances, texturas e componentes incorporados por Nassif e seus parceiros.

Naturalmente imenso quando próximo do material entregue nos discos que o antecedem, Mente, mais do que garantir respostas, encontra na fragmentação das ideias e busca por novos questionamentos a base para grande parte das faixas. Salve momentos de maior leveza, como na já citada Voz Única Foto Sem Calcinha e o pop eletrônico de Santa, tudo parece feito para bagunçar a experiência do ouvinte. E nada está ali por acaso. São canções que partem do inquietante fluxo de pensamento de Nassif, descrevem cenas, personagens e acontecimentos de forma se sempre imprevisível, como se na ausência de qualquer certeza o músico firmasse o alicerce do próprio domínio.