"II"

Ano: 2019
Selo: Warp / LuckyMe
Gênero: Eletrônica, Bass, Trap
Para quem gosta de: Baauer e Rustie
Ouça: First Body e What_It_Is
Nota: 7.8

Crítica | TNGHT: “II”

Bastam os primeiros minutos da introdutória Serpent, faixa de abertura do segundo e mais novo registros de inéditas da dupla TNGHT, para que o ouvinte seja prontamente transportado para dentro do trabalho. Da estrutura crescente na formação das batidas, passando pela colorida sobreposição de vozes e pequenos recortes instrumentais, tudo soa como uma criativa reciclagem do material entregue por Hudson Mohawke e Lunice há sete anos, durante o lançamento do primeiro trabalho de estúdio da dupla. Canções que atravessam os limites das pistas para brincar com a desconstrução do trap/bass.

O mesmo direcionamento estético acaba se refletindo na faixa seguinte do disco, Dollaz. Marcada pela propositada repetição das batidas e vozes, a canção flutua em meio a instantes de parcial silenciamento e distorções grandiosas, como uma interpretação ainda mais intensa do bem recebido debute. Um estímulo para o material que chega na principal composição do disco, First Body. Mesmo ambientada dentro do universo particular da obra, a faixa chama a atenção pelo inusitado uso de elementos da música oriental, transportando o som produzido pelo TNGHT para um novo território criativo.

Na canção seguinte do disco, Club Finger, um parcial regresso ao repertório detalhado no homônimo debute da dupla. Do uso destacado dos sintetizadores, sempre crescentes, à breve interferência das vozes, tudo parece apontar para o início da década, como um diálogo de Lunice e Mohawke com a obra de Future e outros artistas do gênero. Mesmo a já citada Dollaz, nos primeiros minutos do álbum, parece incorporar parte dessa estrutura, ganhando forma em meio a vozes cíclicas, como uma tentativa do TNGHT em ampliar os limites da própria obra.

Interessante perceber em What_it_is, quinta faixa do disco, uma parcial fuga do restante do trabalho. Concebida em uma estrutura minimalista, a canção preserva a essência do restante da obra, porém, se espalha em meio a sintetizadores contidos e batidas retalhadas. Pouco mais de dois minutos em que a dupla parece mergulhar na mesma composição melódica de nomes como Four Tet, distanciando o público do restante da obra. Mesmo o uso da voz assume novo direcionamento estético, cuidado que orienta a experiência do ouvinte até o último instante.

É partindo justamente dessa mesma estrutura econômica que a dupla define parte da experimental I’m in a Hole. Marcada pelo maior refinamento no uso dos sintetizadores, lembrando o trabalho de Mohawke com ANOHNI, a canção ganha forma em meio a atos puramente introspectivos e instantes de maior destaque. São variações instrumentais que sutilmente pervertem a identidade criativa dos dois artistas, porém, capturam a atenção do ouvinte sem grandes dificuldades, efeito direto das incontáveis texturas e ambientações eletrônicas que corram ao fundo da composição.

Faixa mais extensa do disco, Gimme Summ foi justamente a composição escolhida para encerrar o trabalho. E não poderia ser diferente. Do momento em que tem início, na base cíclica de sintetizadores, batidas e vozes, até alcançar o experimentalismo melódico nos minutos finais, tudo soa como um resumo conceitual do repertório entregue pela dupla desde a introdutória Serpent. Um colorido catálogo de ideias que muda de direção a todo instante, proposta que preserva e, ao mesmo tempo, perverte tudo aquilo que Lunice e Mohawke haviam testado no disco anterior.