"Ignatia,"

Ano: 2019
Selo: PWR Records
Gênero: Indie Rock, Dream Pop
Para quem gosta de: Papisa e My Magical Glowin Lens
Ouça: Amigdalite Crônica e Inércia
Nota: 7.7

Crítica | Tori: “Ignatia,”

A vírgula explícita logo no título de Ignatia, (2019, PWR), álbum de estreia da banda sergipana Tori, funciona como um indicativo claro da incerteza que rege o trabalho da cantora, compositora e guitarrista Vitória Nogueira. Concebido em uma medida própria de tempo, sem pressa, o registro completo pela presença de Júlia Rocha (piano), Fábio Aricawa (baixo), Ricardo Ramos (guitarra) e Alexandre Damasceno (bateria), utiliza dessa essência misteriosa como um estímulo natural para a composição dos versos e temas instrumentais. São melodias etéreas, texturas e poemas cíclicos que se entrelaçam de forma sempre precisa, minúcia que orienta a experiência do público até o último instante da obra, na atmosférica La Femme Rompue.

Exemplo disso está na própria faixa de abertura do disco, Tanto. São pouco mais de quatro minutos em que melodias psicodélicas, ruídos e vozes encolhem e crescem a todo instante, como um indicativo claro da estrutura montada pela cantora. Uma propositada fuga do óbvio, direcionamento que se reflete na poesia contemplativa da canção. “Às vezes a pedra tem mais vazio / Do que matéria / E ninguém vê, não“, canta enquanto guitarras carregadas de efeito servem de complemento aos versos, lembrando o trabalho de Papisa e outros nomes recentes da neo-psicodelia brasileira.

São vozes tratadas como instrumentos, pausas e instantes do mais profundo recolhimento sentimental, como um convite a se perder pela mente inquieta e pequenos conflitos lançadas por Nogueira. Síntese desse profundo comprometimento estético se faz evidente na extensa Inércia, terceira faixa do disco. De essência labiríntica, a canção segue exatamente de onde a musicista parou há três anos, durante o lançamento do EP Akoya (2016), trabalho concebido a partir de ambientações contidas que mais parecem ocultar do que revelar qualquer tipo de resposta ao público.

Claro que essa busca por um material puramente atmosférico não interfere na produção de faixas menos arrastadas, como uma fuga do restante da obra. É o caso da curtinha Amigdalite Crônica. Da construção dos arranjos, marcados pelo uso destacado da bateria e guitarras, passando pela composição dos versos, tudo se revela ao público de forma quase imediata. “Eu não sou forte como bomba / Mas eu explodo“, canta enquanto blocos de ruídos correm ao fundo da composição, proposta que naturalmente faz lembrar do som produzido por estrangeiras como Warpaint e Melody’s Echo Chamber.

É partindo justamente dessa dualidade, alternando entre instantes de maior calmaria e faixas movidas pela força dos arranjos, que Nogueira aponta a direção seguida pelo ouvinte. Perfeita representação desse resultado está na dobradinha composta entre . e Cosmonauta Gagarin Decidiu Não Voltar. Enquanto a primeira composição parte de uma sequência de guitarras e batidas rápidas, mergulhando na formação de um som quase jazzístico, na música seguinte, a doce lentidão das formas instrumentais. São vozes psicodélicas e distorções que convidam o público a se perder em um território quase onírico, cuidado também explícito na experimental Sobre o Ponto.

Com título inspirado em uma planta usada como medicamento homeopático para aliviar problemas emocionais, Ignatia, é, como o próprio título indica, uma obra que exige tempo até ser completamente assimilada pelo ouvinte. Trata-se de um registro que transita entre a economia dos arranjos e o profundo refinamento estético. Frações poéticas concebidas a partir de referências literárias, conflitos intimistas e instantes de forte carga emocional, cuidado que amplia de forma significativa tudo aquilo que Nogueira havia testado durante o lançamento de Akoya.