"Pág. 72"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Indie, Pós-Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Kalouv e Sofia Freire
Ouça: Cachoeiras, Pág. 72 e Eu Não Sei Crescer
Nota: 8.4

Crítica | Torre: “Pág. 72”

Mesmo posicionado próximo ao encerramento do disco, o verso que inaugura a derradeira Página 72, última composição do segundo e mais recente álbum de estúdio da banda Torre, funciona como uma delicada síntese do lirismo nostálgico que invade o trabalho. “A memória é sopa escaldante na tigela / É o cheiro de café na infância / É coisa natural“, canta Felipe Castro (guitarra e voz) enquanto incontáveis paisagens instrumentais se revelam ao público em pequenas doses. Instantes de evidente transformação e ruptura estética, como um avanço claro em relação ao material entregue há poucos meses, durante o lançamento do também sensível Rua I (2018).

Comecei a escrever sobre saudade, daí o assunto foi criando forma na memória. A partir daí, os temas da infância foram surgindo”, respondeu o vocalista em entrevista ao Jornal do Commercio. De fato, do momento em que tem início, na lúdica Tinta (“Até que você machucou o pé / Correndo do policial / Que vinha de sandálias havaianas / E pose de cowboy do mal / Ele era a lei / Mas voamos dali“), até alcançar a já citada faixa de encerramento, cada fragmento do disco encontra no passado, real ou imaginário, o principal componente criativo para a formação dos versos.

Fui o primeiro / A subir com minha sacola plástica / Pra recolher seus frutos / Quando me virei / Já tinham dez atrás de mim / Pra brincar de pique-esconde / Entre os galhos caídos“, relembra na delicada Ingazeiro, canção que sutilmente conduz o ouvinte em direção ao passado, fazendo do lirismo descritivo um precioso elemento de estímulo sensorial. São memórias da infância, instantes de doce contemplação e versos sempre consumidos pela saudade, conceito anteriormente testado em músicas como Docilidade e Lume, ambas do álbum anterior, porém, encarado de forma bem resolvida nas canções do presente disco.

E isso se reflete com naturalidade mesmo em faixa que se abrem para a chegada de diferentes colaboradores. Do experimentalismo minimalista que toma conta de Eu Não Sei Crescer, encontro com Gabriel Vallada (Viratempo), passando pela doce melancolia de Tudo Que Vira, parceria com o conterrâneo Filipe Barros (Barro), difícil não se deixar conduzir pelas experiências compartilhadas por Castro e seus parceiros de banda, os músicos Antônio Novaes (guitarra), Danilo Sousa (baixo) e Vito Sormany (bateria). Um evidente exercício de entrega sentimental, cuidado que se reflete mesmo nas composições menos expressivas da obra.

O grande problema do álbum talvez seja a morosidade excessiva que orienta a composição das faixas. Mesmo arquitetado de forma essencialmente detalhista, revelando incontáveis camadas de guitarras, texturas e metais, Pág. 72 parece incapaz de alcançar a grandiosidade explícita em outras criações da banda, como O Rio aos Olhos Dela. Falta ritmo e contraste ao disco, como se tudo se perdesse em uma nuvem e sons e melodias empoeiradas, estrutura que naturalmente dialoga com a base lírica do trabalho, porém, exige tempo até se revelar por completo para o ouvinte.

Entretanto, assim como em Rua I, uma vez atraído pelo lirismo intimista que serve de sustento ao disco, cada fragmento de Pág. 72 se transforma em um objeto precioso. Do xilofone torto que surge e desaparece nos instantes finais de Eu Não Sei Crescer, ao experimentalismo eletrônico que invade o álbum, na inaugural Festa, tudo parece pensado para capturar a atenção do ouvinte. Mesmo a já conhecida Cachoeira, lançada há poucos meses, ganha novo significado quando observada dentro do contexto da obra. Canções que partem da construção de temas universais, fazendo das histórias compartilhadas por Castro um regresso natural às nossas próprias memórias.



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