"Silver Tongue"

Ano: 2020
Selo: Merge
Gênero: Indie Folk, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Lucy Dacus e Phoebe Bridgers
Ouça: Gracious Day e Dressing America
Nota: 7.8

Crítica | Torres: “Silver Tongue”

Se você folhear o encarte de Silver Tongue (2020, Merge), quarto e mais recente álbum de estúdio de Torres, vai perceber o nome de Mackenzie Scott em parte expressiva do processo de montagem da obra. Da produção do disco à inserção das guitarras, da composição dos versos ao uso atmosférico dos sintetizadores, tudo gira em torno das experiências pessoais e esforço da multi-instrumentista norte-americana. Um delicado exercício de profunda entrega sentimental, proposta que se reflete não apenas na base melódica que rege o disco, mas, principalmente, na essência melancólica que orienta a experiência do ouvinte até o último instante do trabalho.

Parece que eu estive atrás de você por toda a vida / Voei para o norte para encontrá-lo, sem saber por que / Você me faz querer escrever uma música country“, confessa logo nos primeiros minutos do registro, na introdutória Good Scare. São versos consumidos pelo parcial isolamento do eu lírico e evidente busca da cantora/protagonista por conforto sentimental, conceito que tem sido explorado pela artista norte-americana desde a entrega do primeiro álbum de estúdio, lançado há sete anos, mas que ganha ainda mais destaque nas canções do presente disco.

Exemplo disso está na dolorosa (e libertadora) Dressing America. São pouco menos de quatro minutos em que Scott não apenas canta sobre os próprios conflitos, como utiliza da dor presente nos versos como estímulo para dialogar com o ouvinte. “Você acha que eu não sei / Você não quer ficar sozinha / Vamos / Você está sempre me dizendo / Eu não sei quem você é / Vamos, mulher“, canta. São canções que partem de memórias recentes, desilusões amorosas e letras consumidas pela saudade, proposta que faz de Silver Tongue um contraponto amargo em relação aos antecessores Sprinter (2015) e Three Futures (2017), trabalhos regidos em essência pela força da guitarrista.

Não por acaso, Scott fez de Gracious Day uma das primeiras composições do disco a serem apresentadas ao público. Marcada pela economia dos arranjos, a canção encanta pela forma como a cantora parte dessa estrutura reducionista como estímulo para uma de suas criações mais sensíveis. “É você que eu vejo ao meu lado / E se você ficasse para descobrir / Eu escreveria apenas músicas de amor para você / Eu cantaria apenas músicas de amor“, confessa. São frações instrumentais que costuram passado e presente de forma sempre tocante, estrutura que se reflete em outros momentos ao longo da obra, como Records of Your Tenderness e Good Grief.

Parte da melancolia que embala o disco vem da escolha de Scott em brincar com a composição de melodias atmosféricas e instantes de parcial recolhimento que servem de complemento aos versos. São ruídos ocasionais, guitarras cíclicas e sintetizadores que surgem e desaparecem durante toda a execução da obra, como uma versão ainda mais precisa do material apresentado no experimental Sprinter. Perfeita representação desse resultado está na entrega de Last Forest, Good Scare e da própria faixa-título do disco. Canções que espalham em meio a entalhes eletrônicos e sobreposições densas, lembrando o Radiohead no início dos anos 2000.

De essência particular, como tudo aquilo que Torres tem produzido desde o início da carreira, Silver Tongue encanta pela forma como a cantora e compositora norte-americana consegue dar novo acabamento a um delicado conjunto de ideias e experiências sentimentais há muito consolidadas não apenas por ela mesma, mas por diferentes artistas. Canções intimistas que partem de decepções amorosas, medos e conflitos mundanos de forma sempre sensível, conceito que se reflete tão logo o registro tem início, em Good Scare, e segue até a autointitulada música de encerramento.