"Tracing Back The Radiance"

Ano: 2019
Selo: Mexican Summer
Gênero: Experimental, Música Ambiente
Para quem gosta de: Tim Hecker e Fennesz
Ouça: Palace of Time e Joy
Nota: 8.0

Crítica | “Tracing Back The Radiance”, Jefre Cantu-Ledesma

Mergulhado em ruídos e incontáveis camadas instrumentais, Jefre Cantu-Ledesma passou os últimos anos brincando com o uso de texturas atmosféricas, abstrações e fórmulas inexatas. Registros como o versátil A Year with 13 Moons (2015), em que transita por entre diferentes campos da música ambiente, ou mesmo obras consumidas pelo peso da distorção, estímulo para o surgimento de álbuns ainda recentes, caso de In Summer (2016) e, principalmente, On The Echoing Green (2017), trabalho em que parece dialogar com a sonoridade delirante de nomes como Kevin Shields (My Bloody Valentine).

Interessante perceber em Tracing Back The Radiance (2019, Mexican Summer), mais recente álbum de estúdio do multi-instrumentista californiano, o princípio de um novo direcionamento estético. Trata-se de uma obra consumida pelos detalhes e incontáveis camadas instrumentais que há tempos orientam a obra de Cantu-Ledesma, porém, partindo de um conceito reformulado. Melodias delicadas, respiros e frações melódicas que convidam o ouvinte a se perder em um universo de formas flutuantes.

Não por acaso, Cantu-Ledesma escolheu a extensa Palace of Time como faixa de abertura do disco. Concebida em um intervalo de mais de 20 minutos de duração, a introdutória criação se espalha aos poucos, revelando nuances improváveis, como um indicativo da nova postura criativa adotada pelo músico. Difícil não lembrar de toda a seleção de obras que vem sendo produzidas por Brian Eno desde o atmosférico Lux (2012). Pianos e captações caseiras que se entrelaçam de forma deliciosamente acolhedora.

Mesmo partindo dessa mesma estrutura, interessante perceber na canção seguinte do disco, Joy, a busca de Cantu-Ledesma por novas possibilidades. Pontuada pelo clarinete minucioso de Jonathan Sielaff, a canção vai do uso de ambientações cósmicas à melancolia do jazz. São inserções minimalistas que se completam pelos sintetizadores de Gregg Kowalsky e Roger Tellier Craig, como uma cama de melodias flutuantes que traduzem de forma econômica tudo aquilo que o músico havia testado de forma solitária nos trabalhos anteriores.

Para o encerramento do disco, na canção que dá título à obra, a mesma leveza na composição dos arranjos e temas instrumentais que orientam a experiência do ouvinte. Trata-se de uma interpretação etérea e naturalmente extensa de diferentes faixas previamente testadas pelo artista em outros projetos. Um lento desvendar de ideias que faz lembrar de faixas como Me, colaboração com Felicia Atkinson, além, claro, de parte expressiva das canções apresentadas na segunda metade de A Year with 13 Moons.

Completo pela presença dos músicos John Also Bennett (flauta), Marilu Donavan (harpa), Chuck Johnson (guitarras), David Moore (piano, órgão), Meara O’Reilly (voz), Christopher Tignor (violino) e a experiente Mary Lattimore (harpa), Tracing Back The Radiance mostra a capacidade de Jefre Cantu-Ledesma em se reinventar criativamente, porém, preservando a própria identidade. Paisagens instrumentais e melodias abafadas que se projetam como uma versão polida de todo o repertório que vem sendo acumulado pelo artista desde o início do trabalho em carreira solo ou mesmo em incontáveis projetos paralelos.